Análise Crítica das Trajetórias Políticas do PT em Minas
Os eleitores do Partido dos Trabalhadores (PT) em Minas Gerais se encontram diante de uma escolha peculiar nas próximas eleições para o governo: apoiar um político que, notoriamente, está distante do ideal de “trabalhador”. O presidente Luiz Inácio Lula da Silva tem pressionado, quase implorando, para que o senador Rodrigo Pacheco (PSD) aceite a sua candidatura com o apoio do partido.
Pacheco, antes de entrar na política, construiu uma carreira sólida no direito empresarial e criminal, atuando em defesa de grandes corporações e clientes influentes. Ele vem de uma tradicional família de empresários em Minas, um fato que nunca escondeu. O problema não reside nessa origem, mas sim na desconexão entre a trajetória do candidato apoiado pelo Planalto e o discurso histórico do PT, que nasceu da luta sindical e da organização popular.
Este não é um lamento nostálgico por um PT que deixou de existir. Desde 2002, a ideologia do partido mescla trabalho e capital. Contudo, o que se observa em Minas é quem realmente ocupa o espaço da liderança.
O PT local parece não acreditar que novas lideranças possam emergir de seus próprios quadros. Nomes como Marília Campos e Margarida Salomão são constantemente deixados de lado. A análise fica mais evidente ao observar o plano B do partido, que recai sobre Josué Alencar, que busca herdar o capital político do pai, o ex-vice-presidente José Alencar, falecido há 15 anos. Josué mantém uma relação ativa tanto com Lula quanto com o empresariado, tenha sido presidente da Fiesp e esteja atualmente à frente da recuperação judicial da Coteminas, enfrentando bilhões em dívidas renegociadas.
Herdar Poder e Popularidade na Política Mineira
Outra figura presente nessa discussão é Alexandre Kalil (PDT), que também nasceu em um berço de ouro. Ele herdou empreiteiras de seu pai, Elias Kalil, e a influência sobre o Atlético Mineiro. Como presidente do clube, foi responsável por trazer Ronaldinho Gaúcho, conquistou a Libertadores e transformou esse sucesso futebolístico em capital político, sendo eleito prefeito de Belo Horizonte em dois mandatos, entre 2017 e 2022.
Em 2022, Kalil, com o apoio formal do PT, tentou o governo de Minas, mas foi eliminado já no primeiro turno. Observadores que acompanharam a campanha sentiram que ele gerou mais antipatia entre os petistas do que apoio popular. O ex-prefeito representa um típico político mineiro contemporâneo: personalista, avesso a partidos e com dificuldade em articular um projeto coletivo.
Não há nada de ilegítimo em ser herdeiro, empresário ou advogado de sucesso. O problema reside na discrepância entre o discurso histórico do PT e os candidatos que a sigla tem apresentado ao eleitorado mineiro.
A Ascensão da Ultradireita e o Desinteresse do PT por Novas Lideranças
Enquanto o PT aposta em poderosos e herdeiros, nomes da ultradireita, como o deputado federal Nikolas Ferreira (PL) e o senador Cleitinho Azevedo (Republicanos), estão sempre em evidência. O vice-governador Mateus Simões, que deixou recentemente o Partido Novo, agora se integrou ao PSD em busca de mais recursos e estrutura para sua campanha.
A opção principal de Lula, Rodrigo Pacheco, sempre teve aspirações ao Supremo Tribunal Federal (STF). Ele trabalhou nos bastidores para isso e contava com apoios significativos, mas acabou sendo preterido por Jorge Messias. Após essa decepção, começou a movimentar-se para deixar o PSD e migrar para o União Brasil, um partido que carrega uma história que vai da Arena da ditadura militar ao bolsonarismo recente, passando por diversas transformações ideológicas.
Rodrigo Pacheco, por sua vez, construiu uma imagem política voltada para a conciliação. Como presidente do Senado, estabeleceu uma relação ambígua com o bolsonarismo, enquanto também se mostrava um interlocutor confiável para Lula. Quando foi eleito senador, era filiado ao DEM, que é o ancestral do União Brasil.
O Legado do PT e o Desafios à sua Relevância
Recentemente, o nome de Pacheco foi mencionado em documentos apreendidos pela Polícia Federal, relacionados à Operação Rejeito, que investiga um esquema de corrupção bilionário no setor da mineração em Minas, o que gerou a necessidade de levar o caso ao STF.
Com essa ênfase em políticos influentes, o PT parece não acreditar que novas vozes possam surgir de suas fileiras. Tanto Marília Campos quanto Margarida Salomão têm expressado, embora sutilmente, seu descontentamento com a estratégia do partido. Marília, por exemplo, foi lançada como pré-candidata ao Senado, mas poderá ser ofuscada por uma composição da cúpula caso o ministro Alexandre Silveira (PSD) resolva entrar na disputa.
Um Futuro Incerto para o PT em Minas Gerais
O PT apostou em nomes que controlam a máquina partidária, mas que não entusiasmam os eleitores, o que levou à sua diminuição na capital mineira. A sucessão de derrotas em Belo Horizonte desestabilizou a conexão do partido com novos segmentos sociais.
Esse declínio também se insere em um contexto nacional de antipetismo, impulsionado por escândalos como o Petrolão, a Lava Jato e a crise política que culminou no impeachment de Dilma Rousseff. Sem uma aposta em renovação, o PT perde relevância em Minas e tenta sobreviver por meio de alianças que estão distantes de sua trajetória fundacional.
Minas Gerais, o segundo maior colégio eleitoral do Brasil, tem uma relevância vital nas eleições presidenciais. O eleitor mineiro tendencialmente reflete a média nacional, e quem perde em Minas raramente alcança a presidência. Contudo, o PT parece incapaz de criar um projeto autêntico e impactante para o estado, mesmo tendo governado Belo Horizonte por três mandatos consecutivos.
O legado da aliança com Aécio Neves, que resultou na eleição de Márcio Lacerda em 2008, ainda pesa sobre o PT. Essa aliança, que beneficiou principalmente o ex-governador Fernando Pimentel, abriu espaço para o crescimento do Partido Novo e de Romeu Zema, que foi reeleito para o governo.
O PT, por fim, parece não ter aprendido com suas experiências passadas. Mais uma vez, busca alianças ao centro e à direita para tentar enfrentar a ascensão do bolsonarismo, mas sem nomes que inspirem a confiança necessária. O futuro do partido em Minas é incerto, e a ironia é que, ao tentar se distanciar de suas raízes, o PT não só abandonou, mas também parece ter desenvolvido um certo ódio ao próprio petismo.
