Cuidado redobrado: Prevenção de ISTs é essencial durante o carnaval
O carnaval traz um clima de descontração e alegria, atraindo muitos foliões. No entanto, esse período festivo também serve como um aviso para a importância da prevenção de infecções sexualmente transmissíveis (ISTs). Com o aumento das interações sociais e afetivas, o risco de contaminação cresce consideravelmente. Um alerta especial recai sobre a sífilis, que teve um aumento expressivo de casos em Belo Horizonte no último ano. Dados do painel epidemiológico da Secretaria de Estado de Saúde de Minas Gerais (SES/MG) revelaram que foram registrados 5.444 casos em 2025, comparado a 5.127 no ano anterior. Já em Minas Gerais, os números também são preocupantes, com 23.521 casos em 2024 e 23.262 em 2025.
O infectologista Alexandre Moura, da Santa Casa de Belo Horizonte e professor na Faculdade Santa Casa BH, enfatiza que a bactéria responsável pela sífilis, o Treponema pallidum, é de difícil controle. Atualmente, não existe vacina disponível e, embora o tratamento seja eficaz, a reinfecção é uma possibilidade real.
Prevenção: Um dever antes, durante e após a folia
A sífilis é transmitida principalmente por meio de relações sexuais, incluindo sexo oral, e também pode ser transmitida de mãe para filho durante a gestação. A preocupação com a transmissão materno-infantil é válida, pois os recém-nascidos podem sofrer consequências graves devido à infecção. Em adultos e idosos, a sífilis pode levar a lesões genitais e, após um período inicial, pode permanecer incubada, adormecida no organismo. Com o passar do tempo, essa infecção pode evoluir, causando complicações neurológicas, problemas de visão e, em casos extremos, alterações semelhantes a um AVC.
Apesar da gravidade da situação, o tratamento para sífilis é relativamente simples, podendo ser feito com penicilina benzatina, que está disponível em todos os postos de saúde. Segundo Moura, a bactéria ainda não desenvolveu resistência aos tratamentos, o que facilita a cura. No entanto, ele alerta que a reinfecção é um risco se o parceiro não receber tratamento.
O uso de preservativos é fundamental para a proteção, sendo essencial em todas as formas de relação sexual, incluindo o sexo oral. Moura menciona uma estratégia adicional em discussão pelo Ministério da Saúde: a administração de antibióticos após relações desprotegidas, embora essa prática ainda não esteja disponível no Sistema Único de Saúde (SUS).
Se uma pessoa teve um relacionamento de risco e deseja se proteger, é recomendável buscar um médico para discutir a possibilidade de iniciar o uso de antibióticos profiláticos ou, alternativamente, realizar testes para verificar a presença de infecções após 15 a 30 dias.
Outros cuidados importantes durante o carnaval
Durante o carnaval, o número de parceiros e contatos aumenta, tornando imprescindível redobrar a atenção. Além da sífilis, o HIV, que causa a AIDS, é uma preocupação constante. A prevenção para o HIV envolve o uso de preservativos e o acesso à Profilaxia Pré-Exposição (PrEP), que pode ser utilizada de forma contínua ou sob demanda. A PrEP é um antirretroviral que deve ser tomado preventivamente para evitar a infecção, e requer que a pessoa seja testada para o HIV antes de sua utilização. Existe também a Profilaxia Pós-Exposição (PEP), que deve ser iniciada imediatamente após uma possível exposição ao vírus.
Moura alerta sobre a importância de se vacinar contra o HPV, vírus relacionado ao câncer de colo do útero e ao câncer de pênis. A vacinação contra o HPV está disponível para crianças de 9 a 14 anos, embora, acima dessa faixa etária, o acesso ao SUS seja limitado.
Prevenção combinada: O futuro das ISTs
O infectologista Marcelo Cordeiro, consultor médico do Sabin Diagnóstico e Saúde, afirma que a abordagem moderna para a prevenção de ISTs envolve uma estratégia combinada. “Não se trata apenas de um único método; a prevenção moderna utiliza um ‘cardápio’ de opções que se adaptam à vida de cada pessoa. Isso inclui o uso de preservativos, profilaxias medicamentosas (PrEP e PEP), vacinação e testagem regular”, explica.
Segundo Cordeiro, muitas ISTs podem ser silenciosas, sem apresentar sintomas visíveis, o que aumenta o risco de transmissão. Isso é especialmente verdadeiro para sífilis, HPV, clamídia e hepatites virais.
Ações de saúde durante o carnaval em Belo Horizonte
Cintia Parenti, infectologista da Coordenação de Saúde Sexual e Atenção às IST Aids e Hepatites Virais da Prefeitura de Belo Horizonte, destaca que as medidas preventivas estão disponíveis durante todo o ano, mas no carnaval há um esforço adicional para facilitar o acesso. “Distribuiremos folders informativos e preservativos nos pontos estratégicos da cidade, como o Mercado Central e a Praça Tiradentes, além de realizar ações educativas nos desfiles de carnaval”, afirma.
Os centros de saúde da cidade estarão preparados para atender a população, oferecendo preservativos e medicamentos para PrEP e PEP, além de informações sobre cuidados com a saúde sexual.
Prevenção contínua: O papel da comunidade
O subsecretário de Vigilância em Saúde da SES/MG, Eduardo Prosdocimi, enfatiza a importância das ações de prevenção durante o carnaval. “Distribuiremos mais de 5 milhões de preservativos e também garantiremos acesso a vacinas contra hepatites e HPV nas unidades de saúde. Nossas campanhas incluem a entrega de materiais informativos e a realização de testagens rápidas”, destaca.
Assim, a saúde sexual deve ser uma prioridade, não apenas durante o carnaval, mas em todos os momentos. A testagem regular é uma forma eficaz de interromper a cadeia de transmissão, beneficiando não apenas o indivíduo, mas também seus parceiros.
