Crescimento das pausas no esporte
No último dia 14 de fevereiro, durante o início da temporada do futebol brasileiro, o Vasco da Gama enfrentou o Volta Redonda em uma partida das quartas de final do Campeonato Carioca. Nesse jogo, o time, que atravessava uma fase difícil, acabou derrotado por 1 a 0. A atenção da torcida, no entanto, se voltou para Philippe Coutinho, um dos jogadores mais queridos, que foi vaiado ao ser substituído por Rojas. O meio-campista, aos 33 anos, decidiu deixar o clube, alegando que estava “cansado mentalmente”. Em um comunicado nas redes sociais, Coutinho destacou que, ao retornar ao vestiário, percebeu que seu ciclo no Vasco havia chegado ao fim, optando por priorizar sua saúde mental. A diretoria planejava renovar seu contrato, mas ele encerrou sua trajetória em São Januário antes de entender plenamente a turbulência emocional que estava enfrentando. Essa situação revela um fenômeno crescente entre atletas, que têm tomado a iniciativa de interromper suas carreiras para evitar crises psicológicas.
Nos últimos anos, diversos atletas e treinadores de diferentes modalidades têm feito pausas, sejam curtas ou longas, de maneira repentina ou planejada, priorizando a saúde mental. Exemplos notáveis incluem a tenista Naomi Osaka, a ginasta Simone Biles e o técnico Tite, que rejeitou uma proposta tentadora para voltar ao Corinthians, clube onde é ídolo. A pressão em esportes de alto rendimento se tornou um terreno propício para questões de saúde mental, refletindo uma realidade mais ampla da sociedade brasileira. Em 2023, pedidos de afastamento do trabalho por problemas relacionados à saúde mental superaram 546 mil, marcando um aumento de 15% em comparação ao ano anterior, segundo dados do Ministério da Previdência Social.
Raphael Zaremba, professor de Psicologia do Esporte da PUC-Rio, enfatiza que o ambiente esportivo está cada vez mais influenciado pelas redes sociais, que amplificam a pressão sobre os atletas. “O esporte carrega um peso diferente em relação a outras profissões, devido ao crescimento das redes sociais, que permitem a expressão de opiniões e críticas que impactam os atletas diretamente. Essa pressão, já existente, se intensifica na atualidade”, ressalta Zaremba.
A experiência de Tati Weston-Webb
Sete meses após conquistar a medalha de prata nos Jogos de Paris 2024, Tati Weston-Webb passou a perceber, por meio de acompanhamento psicológico, sinais de desgaste emocional. Assim, em março do ano passado, ela optou por dar uma pausa na carreira. “Aprendemos, durante muito tempo, que no esporte de alto rendimento é preciso ser forte sempre. Mas força também é saber quando parar”, reflete a surfista. Em uma conversa com seu time e sua psicóloga, Tati compreendeu a importância de se reconectar consigo mesma e cuidar da saúde mental antes que o desgaste se tornasse algo mais sério. Durante sua pausa, Tati deu à luz a Bia Rose, sua filha, nascida no início de fevereiro.
“O surfe sempre foi minha paixão. Essa pausa não foi um retrocesso, mas sim um investimento na minha longevidade, tanto dentro quanto fora do esporte. A experiência de ser mãe me trouxe uma nova perspectiva em relação ao equilíbrio e às prioridades. Hoje, percebo que cuidar da mente é tão fundamental quanto treinar o corpo”, conclui Tati.
A importância do debate sobre saúde mental
Discutir abertamente a saúde mental no esporte é um passo crucial. Zaremba menciona a importância do caso de Simone Biles, que, ao retirar-se de diversas competições durante os Jogos de Tóquio em 2021 devido a bloqueios emocionais, elevou a conversa sobre esse tema. Biles deu a volta por cima e conquistou quatro medalhas nos Jogos de Paris, em 2024, mas Zaremba alerta que é imprescindível preparar os atletas desde a juventude para lidarem não apenas com adversidades, mas também com a fama, a pressão da mídia e as redes sociais. “Se os atletas não são preparados desde cedo para enfrentar esses desafios, é muito fácil sucumbirem em momentos de pressão”, adverte Zaremba, destacando que a atenção à saúde mental deve ser uma constante ao longo da carreira esportiva.
