Análise sobre a transição política e as novas figuras que emergem em Minas Gerais
O governo de Romeu Zema, do partido Novo, trouxe uma nova lógica empresarial ao estado de Minas Gerais, alinhando-se ao establishment político tradicional e utilizando a crise econômica como justificativa para implementar uma austeridade seletiva. A essência de uma república, conforme observado por Newton Bignotto, é moldada desde sua fundação, criando um legado simbólico fundamental para a manutenção dos valores que formam o corpo político. Minas Gerais, historicamente reconhecido como o “fiel da balança” das eleições nacionais, sempre foi um celeiro de estadistas pragmáticos, reconhecendo-se a expressão popular “Quem ganha em Minas, ganha o Brasil”. No entanto, o cenário político atual se assemelha a uma metamorfose que ameaça a estrutura das instituições representativas.
Hoje, a política mineira é dominada por uma arena onde a semiótica digital e a performance midiática tomaram o lugar da substância administrativa e do debate de políticas públicas. Em tempos passados, a emoção prevalecia sobre a razão. Nesse contexto, se destaca a figura do senador Cleitinho Azevedo, do Republicanos, que surge como um novo tipo de político, aproveitando o vazio deixado tanto pela burocracia governista quanto pela esquerda tradicional. O que podemos observar é o surgimento de um populismo algorítmico, onde a indignação performática é a base de um projeto de poder.
A forte presença da direita e centro-direita em Minas Gerais, somada à aceitação de discursos radicais, tem levado analistas a ignorarem a crise financeira da gestão de Fernando Pimentel (PT), que governou entre 2015 e 2018. A narrativa da “terra arrasada”, repetida por Zema e seus aliados, sugere que o PT arruinou as finanças do estado, uma visão que ignora a complexidade da situação. O verdadeiro colapso não reside apenas em um déficit macroeconômico, mas no confisco de recursos constitucionais devidos aos municípios, o que resultou em uma dívida histórica que alcançou quase R$ 12 bilhões. Isso afetou severamente a capacidade de investimento e a solvência dos municípios, levando à impossibilidade de pagamento de salários de servidores públicos e à paralisia de serviços essenciais.
Esse estrangulamento financeiro foi um dos principais fatores que minaram o apoio a Pimentel. Em resposta, Romeu Zema, ao assumir em 2019, inicialmente seguiu a mesma prática predatória de seu antecessor, confiscando recursos dos municípios. A ironia é que, ao longo de seu governo, ele transformou uma crise fiscal em uma narrativa de moralidade, evidenciando uma habilidade política em reverter a situação. O governo ainda se beneficiou de um acordo de reparação com a mineradora Vale, o que permitiu um alívio nas finanças estaduais.
Um dos principais nomes cotados para suceder Zema é o vice-governador Mateus Simões, um burocrata que se distancia do carisma necessário para conquistar o eleitorado. Recentemente, ele optou por se desfiliar do Novo e se juntar ao Partido Social Democrático (PSD), uma estratégia para solidificar sua base eleitoral. No entanto, sua falta de apelo popular e a dependência da máquina pública levantam questões sobre sua capacidade de mobilização.
A esquerda, por sua vez, enfrenta uma paralisia ideológica. Carente de coragem para se afirmar, opta por um discurso de centro moderado, o que a afasta de sua base histórica. A fragmentação e a falta de propostas concretas deixaram um espaço vazio que foi rapidamente preenchido por figuras como Cleitinho, que representam uma nova política, mas que também se inserem na dinâmica tradicional de perpetuação do poder familiar.
Cleitinho Azevedo, que obteve mais de 4,2 milhões de votos em sua eleição, é o epítome da política moderna que se nutre de redes sociais e performatividade. Ele mistura pautas conservadoras com demandas populares, utilizando uma retórica que apela diretamente às emoções dos eleitores. Sua ascensão reflete uma desconexão com a realidade política e uma transformação da atividade parlamentar em um espetáculo midiático. Enquanto isso, o estado enfrenta uma crescente dívida global que pressiona a administração pública, fazendo com que a política contemporânea se resuma a promessas infundadas e performances eloquentes.
A dinastia Azevedo, com Cleitinho e seu irmão Gleidson à frente, exemplifica a perpetuação do poder familiar em um cenário que aparenta ser antissistema. Essa contradição revela uma dinâmica política onde o discurso de ruptura e mudança é utilizado para consolidar interesses familiares e partidários. O mapeamento da atual realidade política em Minas Gerais evidencia a crise de representatividade e a ascensão de uma política que se distancia da substância em favor de rótulos e performances.
