Conexão Inigualável com Minas Gerais
As luzes do Teatro Francisco Nunes, popularmente conhecido como “Teatro da Emergência”, em Belo Horizonte, iluminavam o palco na noite do último sábado, enquanto uma plateia animada, com mais de 900 pessoas, aguardava ansiosamente pela apresentação. O público, que se espalhava por todos os cantos do espaço, ocupava até mesmo o palco, e uma fila se estendia até o Palácio das Artes, o famoso complexo cultural vizinho. Em destaque, dois ícones da música brasileira: Fagner e o guitarrista Robertinho de Recife. Aquele momento, que remonta a 1976, marcou o primeiro show do cantor cearense em solo mineiro, um período em que ele já acumulava sucessos como ‘Canteiros’ e ‘Mucuripe’. Ao relembrar essa noite mágica, Fagner afirma, em entrevista ao BHAZ, que “lembra como se fosse ontem” do calor humano que sentiu, com fãs esperando do lado de fora e uma “empatia gigantesca” que o levava a expressar: “Desafio qualquer artista de fora a ter uma relação com Minas Gerais maior que a minha”.
Esse vínculo especial, que se fortalece a cada apresentação, será relembrado nos shows que o cantor realizará neste final de semana, nos dias 21 e 22, na turnê ‘Muito Amor’, que ocorrerá no Grande Teatro do Palácio das Artes.
Um Repertório para Todos os Gostos
Durante o show, Fagner, que recentemente lançou o álbum ‘Bossa Nova’, prometeu levar o público a uma viagem por suas mais de cinco décadas de carreira musical. A lista de canções é tão extensa que, surpreendentemente, a própria faixa que dá nome à turnê, ‘Muito Amor’, às vezes acaba não sendo incluída. “Houve um momento em que quase esqueci de mencioná-la no setlist. Estava tão focado em apresentar outras canções que acabei deixando essa de lado. Mas quem sabe, com o carinho do público mineiro, eu a retome”, brincou o cantor.
A música, lançada em 2001, chegou até ele de uma maneira inusitada: um jovem chamado São Beto deixou uma fita na porta de sua casa no Leblon, Rio de Janeiro. O rapaz, que também era autor, em parceria com Beto Scala, do clássico ‘Traje de Princesa’, conhecido na voz de Alcione, não imaginava que sua contribuição musical fosse tão significativa. Fagner recorda que, embora a fita fosse mal apresentada, ela encontrou seu espaço nas gravações do disco ‘Fagner’, quando, numa noite, ao ouvi-la novamente, decidiu que ‘Muito Amor’ abriria seu álbum. “É uma canção poética, que pode não ter um sucesso imediato, mas sei que o público mineiro, que me acompanha há tanto tempo, com certeza a conhece”, disse.
Clássicos e Homenagens
Enquanto a inclusão de ‘Muito Amor’ depende da resposta da plateia, o repertório não deixa de fora clássicos inegociáveis como ‘Revelação’, ‘Mucuripe’, ‘Borbulhas de Amor’ e ‘Espumas ao Vento’. Os belo-horizontinos têm um encontro agendado com esses sucessos às 21h de sábado (21) e às 19h de domingo (22). Os ingressos, com preços a partir de R$ 280, podem ser adquiridos na plataforma Sympla.
Além das canções que caracterizam sua carreira, Fagner compartilhou que também gosta de interpretar ‘Onde Deus Possa Me Ouvir’, uma famosa canção do saudoso Vander Lee e, em 2022, ele fez uma turnê dedicada ao artista, que considera um “acerto de contas”. A música, que deveria ter sido gravada com Vander Lee e acabou substituída na época, foi finalmente adicionada no álbum ‘Além Desse Futuro’, lançado em 2024. “Tive muitas experiências incríveis com ele, e o que fazemos é celebrar essa amizade”, afirmou.
Memórias e Experiências em Belo Horizonte
Fagner, que mantém laços profundos com Minas Gerais, relembra sua trajetória na cidade, onde se apresentou em lugares como o antigo Diretório Acadêmico da UFMG, que hoje abriga o Cine Belas Artes. “Era um espaço pequeno, com no máximo 300 lugares, mas sempre tinha gente extra por lá”, recorda. Anos depois, ele voltou ao Chico Nunes, onde a história se repetiu com a necessidade de shows adicionais devido à grande demanda.
Um momento marcante ocorreu em 1979, quando Fagner prometeu um show gratuito no Parque Municipal, logo após um clássico entre Cruzeiro e Atlético. “A apresentação se tornou um festival de confusão, com cerca de 30 mil pessoas presentes. Eu tive que encerrar o show prematuramente, foi uma loucura”, recorda.
A Magia do Público Mineiro
Em meio a lembranças, Fagner reafirma sua crença de que poucos artistas de fora conseguem estabelecer uma ligação tão intensa com Minas Gerais. Ele destaca não apenas o amor pela música, mas também a culinária e as amizades que cultivou por lá. “O mineiro é um público que ama música. Minas tem artistas que moldaram gerações e seu carinho é um incentivo imenso”, disse.
Fagner encerra sua reflexão lembrando-se de um encontro especial com uma fã que, apesar das dificuldades, atravessou o salão para demonstrar seu carinho. “Aquela mulher me abençoou, e eu sou grato por isso até hoje”, compartilhou, emocionado. “É algo mágico, verdadeiramente incrível”.
