A Renomada Adaptação Ganha Novo Fôlego
Quando se trata de teatro, Gabriel Villela tem um truque na manga, especialmente em sua terra natal, Minas Gerais, e em Pernambuco, onde a palhaçaria é uma arte viva nas ruas. Ele afirma que basta acender um ‘palitinho de fósforo’ para que os artistas do riso ganhem vida. Essa abordagem se revelou eficaz ao longo de sua trajetória, como demonstrou em sua colaboração com o Grupo Maria Cutia, em Belo Horizonte, há cerca de uma década.
A montagem de “O Auto da Compadecida”, em exibição até domingo no Teatro de Arena do Sesc Copacabana, é um exemplo claro da relevância da busca pela graça nas artes. Este espetáculo, que surge de uma parceria inusitada entre Villela e a companhia, destaca-se pela sua visão ousada e pouco convencional, principalmente considerando a importância cultural da obra de Ariano Suassuna (1927-2014).
Em cena, podemos ver talentos como Leonardo Rocha, Hugo da Silva, Mariana Arruda, Dê Jota, Thiago Queiroz, Marcelo Veronez e Polyana Horta. Os atores, com figurinos que entrelaçam o barroco, a estética circense e a arte popular, exploram a dramaturgia de maneira ousada. Villela não hesita em louvar o estilo próprio do Grupo Maria Cutia, ressaltando que ‘são atores que apostam no malfeito e fazem bem-feito’. Segundo ele, a irreverência do espetáculo reside na opção de evitar a moral cristã tradicionalista, fazendo um convite à reflexão.
A narrativa, que é praticamente conhecida por todos os brasileiros, segue as desventuras de Chicó e João Grilo, dois personagens que, à sua maneira, lutam pela sobrevivência no sertão da Paraíba. Interpretados por Matheus Nachtergaele e Selton Mello na aclamada versão cinematográfica de 2000, os personagens utilizam de espertezas e malandragens que os transformam em verdadeiros heróis populares, refletindo um panorama sem filtros da sociedade brasileira.
Villela comenta que Suassuna conseguiu extrair elementos da cultura latino-americana e da Península Ibérica para criar figuras emblemáticas que representam a singularidade do povo brasileiro. Para ele, a obra é uma ‘igrejinha com beleza interior’, estabelecendo um diálogo entre a arte popular e as formas eruditas, destacando a riqueza das interseções culturais e religiosas que permeiam a obra.
Um Olhar Crítico sobre a Atualidade
Após sete anos desde sua estreia em São Paulo, a adaptação carioca marca a primeira vez em que a companhia se apresenta no Rio de Janeiro, celebrando duas décadas de atividades. A trupe estabelece uma conexão clara com o renomado Grupo Galpão, que também é conhecido por seu compromisso com o teatro de rua e a discussão de temas atuais.
O mundo mudou desde que “O Auto da Compadecida” foi apresentado pela primeira vez, e Villela não hesitou em atualizar o espetáculo com adições musicais que refletem a diversidade cultural brasileira. Músicas reconhecíveis, como ‘Alegria, alegria’ de Caetano Veloso e ‘Carcará’ de João do Vale, são apresentadas ao vivo, intensificando o caráter político da peça e a sua relação crítica com o presente, sempre sem cair na armadilha do panfletarismo.
Para Villela, a realidade sociopolítica do Brasil impacta diretamente sua abordagem teatral. ‘Sou de uma escola de teatro que privilegia o pensamento e a conversa sobre tudo’, destaca. Ele ainda lembra de suas experiências em tempos de ditadura militar, afirmando a importância da palavra como uma poderosa ferramenta de ação e ressonância.
O diretor conclui que o teatro deve sempre ser uma arte do verbo animado, onde, em grego, a palavra ganha vida através do ‘sopro de Deus’. Isso reflete sua filosofia de que o teatro não é apenas uma forma de entretenimento, mas também um meio de reflexão profunda sobre a sociedade.
