Revolução Gastronômica em Belo Horizonte
Belo Horizonte, conhecida por sua rica tradição culinária, que remete a receitas de avó e botecos cheios, passa por uma transformação no cenário gastronômico. Nos últimos anos, a capital mineira tem se aberto a novas experiências e sabores, mantendo, ao mesmo tempo, suas raízes. Nesse contexto, os chefs Guilherme Furtado e Gabriella Guimarães se destacam ao apresentar uma nova perspectiva sobre a gastronomia local, fruto de suas experiências em cozinhas renomadas na Espanha.
Após sete anos no exterior, onde aprimoraram suas técnicas e expandiram seu repertório, o casal trouxe de volta a Belo Horizonte uma inquietação criativa que se reflete em seus projetos. Eles têm como missão ampliar o horizonte gastronômico da cidade, desafiando as tradições estabelecidas e convidando o público a explorar novos sabores.
Influências da Espanha na Cozinha Mineira
Guilherme Furtado destaca a importância de sua experiência no lendário restaurante El Bulli, dos irmãos Adrià, conhecido por ter revolucionado a alta gastronomia mundial. O chef comenta: “Trabalhar ali foi uma realização de sonho. Aprendi não apenas sobre técnicas, mas sobre disciplina e consistência”. Essa formação se materializa nas casas que gerenciam atualmente: um restaurante de comida asiática, um de cozinha espanhola e, em breve, um bar especializado em coquetéis.
A Rua Santa Catarina, no bairro de Lourdes, se tornou o centro de suas operações, onde a criatividade e a inovação se encontram. Com a chegada do segundo filho, o casal continua a expandir seu pequeno império gastronômico, desafiando a percepção tradicional de que a culinária mineira deve ser conservadora.
Inovações em um Mercado Tradicional
Durante uma conversa, Guilherme reflete sobre os desafios de introduzir novas propostas em um estado que valoriza sua gastronomia clássica: “O mineiro come bem, mas por muito tempo foi resistente a novidades. Isso está mudando gradativamente. Se compararmos com dez anos atrás, o cenário evoluiu bastante; há mais diversidade e novos projetos surgindo”.
A abertura para cozinhas internacionais, especialmente as asiáticas, é um indicativo dessa nova fase. “Hoje, o público está mais curioso e interessado por sabores diferentes”, afirma. No entanto, esse processo requer paciência, como notou durante a trajetória de seus restaurantes, que inicialmente enfrentaram resistência, mas conseguiram conquistar o paladar dos belo-horizontinos.
Okinaki e Parallel: A Nova Geração de Restaurantes
O primeiro projeto da dupla, o Okinaki, foi lançado durante a pandemia com a proposta de reinterpretar a comida de rua asiática. O cardápio oferece pratos como ramen, baos e outras delícias, que representam uma fusão entre Japão, China, Coreia e Vietnã. Inicialmente pensado como um serviço de entrega, o sucesso foi tanto que ganharam um espaço físico, criando um ambiente descontraído e acolhedor.
No Okinaki, o público pode experimentar pratos como o missô ramen, que combina um caldo profundo com o famoso Katsu Sando e um onigiri com pasta de caranguejo, entre outros. Essa abordagem despretensiosa resgata a essência da comida de rua, tornando a experiência gastronômica acessível e divertida.
O Parallel, por outro lado, representa um momento mais maduro e sofisticado na carreira do casal. Com um ambiente que convida a longas conversas, oferece uma cozinha espanhola autêntica que faz jus ao nome do restaurante, que remete a uma das principais avenidas de Barcelona. A casa serve pratos icônicos, como as diferentes versões de paella e tapas que equilibram técnica e sabor.
Futuro Promissor: Coquetéis e Novas Experiências
O casal não pretende parar por aí. O próximo passo é a abertura do Vértice, um bar de coquetéis que promete unir a coquetelaria à cozinha de qualidade. Entre os itens do menu, destacam-se o lobster roll e o pastrami, que ainda são incomuns na cidade. Guilherme expressa também o desejo de abrir um restaurante mexicano que fuja do clichê tex-mex, explorando a rica culinária tradicional.
Belo Horizonte: O Despertar de um Polo Gastronômico
À medida que a cidade se reinventa, surge a questão: qual é o papel de Belo Horizonte como centro gastronômico? Embora ainda muito ligada aos botecos e à comida tradicional, há uma movimentação crescente que busca diversificar o cenário. Guilherme argumenta que, para que BH se torne um destino gastronômico, é necessário um planejamento estratégico. “Não basta realizar eventos isolados; precisamos de um projeto contínuo”, defende.
Ele acredita que, com a união de talentos locais, diversidade e um forte calendário de eventos, Belo Horizonte pode consolidar sua identidade gastronômica e atrair turistas. “A cidade já possui tudo o que um grande polo precisa. Agora, só falta que a estratégia esteja alinhada”, conclui.
Por fim, a essência da cidade continuará a pulsar em seus tradicionais botecos, mas há espaço para a inovação e a experimentação. O futuro da gastronomia em Belo Horizonte pode estar justamente nesse equilíbrio entre tradição e modernidade.
