Desafios da Vacinação contra o HPV em Minas Gerais
A vacinação contra o HPV (papilomavírus humano) em Minas Gerais demonstra disparidades notáveis entre os municípios e um alcance insatisfatório entre os meninos. Essa conclusão é parte de um estudo conduzido pelo Observatório de Pesquisa e Estudos em Vacinação (Opesv), da Escola de Enfermagem da UFMG, que analisou a cobertura vacinal no período de 2014 a 2022.
Durante esses anos, constatou-se que apenas 9,96% dos adolescentes mineiros, com idades entre 9 e 14 anos, completaram a vacinação contra o HPV, que requer duas doses. A pesquisa revelou cinco perfis distintos em todo o estado: algumas cidades mostram alta cobertura vacinal combinada com melhores condições socioeconômicas, enquanto outras enfrentam baixa adesão, associada a fatores como pobreza, acesso limitado à saúde e debilidades na rede pública de saúde.
Mesmo em áreas urbanizadas, os desafios persistem, principalmente em relação à vacinação do público masculino e à redução das disparidades regionais. Os pesquisadores mapearam agrupamentos territoriais cujas taxas de cobertura vacinal diferem significativamente da média, identificando assim os chamados “clusters” em todos os 853 municípios de Minas Gerais.
Os dados obtidos permitem concluir que a baixa escolaridade dos pais, a falta de participação em atividades educativas sobre saúde e a escassa percepção do risco relacionado à doença são elementos que influenciam negativamente a adesão à vacinação.
A coordenadora do estudo, professora Fernanda Penido, ressalta a importância da vacina como a principal forma de prevenção contra o HPV, uma infecção sexualmente transmissível que pode levar ao desenvolvimento de cânceres, como o cervical, do trato anogenital e de cabeça e pescoço. “Embora a Organização Mundial da Saúde (OMS) tenha reforçado a necessidade de programas de vacinação globalmente, a implementação do imunizante contra o HPV enfrenta obstáculos, como mudanças na população alvo e no esquema vacinal ao longo do tempo, além do receio de possíveis efeitos adversos”, comenta Fernanda.
Resultados e Análises
Entre os dados obtidos, uma análise focada nos adolescentes do sexo masculino revelou que apenas 9,73% dos municípios mineiros atingiram a meta de cobertura vacinal (acima de 80%) para a primeira dose, enquanto 77,49% das cidades alcançaram essa meta para as adolescentes do sexo feminino. Ao longo do estudo, 37,51% dos municípios mineiros foram considerados com cobertura geral adequada para a primeira dose.
Os resultados também indicam que, no caso dos meninos, a proporção de municípios que conseguiram atingir a meta de cobertura foi significativamente menor. O primeiro cluster, que compreende 259 municípios, apresenta alta urbanização e cobertura, mas enfrenta dificuldades na adesão masculina. O segundo cluster, com 178 municípios, identificou baixa cobertura e alta pobreza, além do limitado acesso aos serviços de saúde, enquanto o terceiro cluster, com 166 municípios, apresentou uma cobertura vacinal alta e condições socioeconômicas favoráveis. O quarto cluster, também com 166 municípios, evidenciou fragilidades na saúde pública, necessitando de intervenções específicas. Por último, o quinto cluster abrange 84 municípios que, apesar de altamente urbanizados, enfrentam desigualdades significativas entre a urbanização e a adesão à vacinação.
Para a professora Fernanda, a discrepância na adesão entre adolescentes do sexo masculino e feminino pode ser atribuída a fatores culturais e à percepção de risco relacionada ao HPV. “As campanhas direcionadas ao público masculino costumam ter um alcance mais limitado”, destaca ela.
A professora enfatiza que o processo de urbanização geralmente facilita o acesso a serviços de saúde e informações sobre a importância da prevenção das infecções relacionadas ao HPV e os benefícios da vacinação. Isso, por sua vez, resulta em uma adesão mais significativa à vacina. “A baixa cobertura entre meninos, a disparidade entre as doses e as fragilidades estruturais na saúde pública em áreas mais vulneráveis reforçam a necessidade de abordagens intersetoriais para garantir equidade em saúde, aumentar a cobertura vacinal contra o HPV e reduzir a incidência de doenças associadas no estado”, conclui.
