Resultados de um Estudo Longitudinal
A pesquisa realizada por especialistas do Hospital de Clínicas de Porto Alegre (HCPA) e da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS) revelou conexões preocupantes entre desigualdade de gênero entre pais e a saúde mental dos filhos. Os dados foram publicados na revista Cambridge Prism: Global Mental Health e analisam uma coorte de 2.852 jovens acompanhados desde 1993 até completarem 18 anos, abrangendo uma diversidade de contextos familiares.
O estudo utilizou o Índice de Desigualdade de Gênero do Casal (IDGC) para avaliar como desigualdades entre pai e mãe impactavam a vida dos filhos em três dimensões principais: nível de escolaridade, renda e autonomia reprodutiva da mãe. O resultado? Quanto maior a desigualdade, menor o índice.
Benefícios da Igualdade no Lar
Os resultados revelam que jovens provenientes de famílias mais equilibradas em termos de gênero alcançaram, ao completar 18 anos, um aumento significativo em sua educação, com uma média de 1,5 ano a mais de estudo. Além disso, esses jovens apresentaram uma qualidade de vida superior, com aproximadamente 10 pontos a mais na escala da Organização Mundial da Saúde (OMS), e um risco 36% menor de desenvolver depressão.
Essas constatações foram consistentes tanto entre meninos quanto entre meninas, enfatizando que um ambiente familiar equilibrado tem benefícios tangíveis para todos os filhos, independentemente do gênero. A pesquisa revelou que 5,9% dos jovens avaliados atenderam aos critérios para depressão aos 18 anos, sendo que a prevalência do transtorno foi maior entre aqueles que cresceram em lares com desigualdades acentuadas entre os pais.
Reflexões de Especialistas
A psiquiatra e uma das pesquisadoras do estudo, Clarissa Severino Gama, ressalta que os efeitos da igualdade de gênero transcendem a esfera social. “Quando abordamos a igualdade de gênero neste estudo, não estamos apenas discutindo uma questão de justiça social, mas também de educação, saúde mental e do futuro das crianças”, afirma.
Retrato das Famílias Estudadas
A análise das famílias participantes revelou alguns dados intrigantes: 62,9% dos casais apresentavam níveis de escolaridade iguais ou as mulheres tinham formação superior. Em contrapartida, apenas 4,9% das mães tinham renda igual ou superior à dos pais. Além disso, 69,7% das mulheres se tornaram mães após os 20 anos, realizando mais de oito consultas durante a gestação.
Os achados confirmam que, em lares com maior igualdade entre pais e mães, as chances de os filhos obterem mais anos de estudo e manterem a saúde mental durante a transição para a vida adulta aumentam. Por outro lado, os ambientes familiares com disparidades acentuadas estão correlacionados a níveis elevados de depressão, especialmente quando o IDGC é mais baixo.
Portanto, fica evidente que promover a igualdade de gênero dentro de casa não é apenas uma questão de respeito e justiça, mas uma estratégia eficaz para garantir o bem-estar das futuras gerações.
