Memorial dos Direitos Humanos: Um Espaço de Resistência
Belo Horizonte — Comemorando 62 anos desde o golpe militar de 1964, que instaurou um regime autoritário no Brasil, o prédio localizado na Avenida Afonso Pena, 2351, no Centro da capital mineira, se transforma em um símbolo de memória e resistência. O edifício, elaborado pelo arquiteto Hélio Ferreira Pinto em 1958, é agora o Memorial dos Direitos Humanos Ocupado, que foi a sede do Departamento de Ordem Política e Social de Minas Gerais (DOPS-MG) e, a partir de 1970, também do DOI-Codi (Departamento de Operações de Informações — Centro de Operações de Defesa Interna).
Durante os anos sombrios da ditadura civil-militar (1964-1985), o lugar foi um dos principais centros de repressão política em Minas Gerais, protagonizando prisões arbitrárias, interrogatórios brutais e torturas. Militantes de esquerda, estudantes, trabalhadores e artistas, todos eles se tornaram vítimas desse capítulo trágico da história brasileira.
Segundo investigações da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG) e depoimentos coletados para dossiês de tombamento e na Comissão da Verdade, muitas pessoas foram submetidas a condições desumanas, enfrentando celas subterrâneas e sessões de tortura que incluíam métodos como pau de arara e choques elétricos. Inclusive, o prédio contava com um canil para cães que eram empregados em ações repressivas.
Um relato comovente do aposentado e anistiado Oraldo Paiva, de 75 anos, resume a dor vivida naquele espaço: “Cada parede dessa tem uma memória. É difícil descrever o que passamos aqui. O processo de tortura deixa marcas psicológicas, físicas e na alma.” Oraldo, um dos que luta para manter viva a memória do local, relembra as sessões de tortura que presenciou e como essas experiências moldaram sua vida.
Figuras públicas como o ex-governador Fernando Pimentel e diversos militantes mineiros também têm suas histórias entrelaçadas com a narrativa sombria do prédio.
A Caminhada para a Memória e Justiça
Após o fim da ditadura, o DOPS foi extinto em 1989, e o prédio passou a ser utilizado como delegacia e, em seguida, como cadeia feminina. Contudo, sua estrutura preservada e a arquitetura marcante continuam a evocar o passado de violações de direitos humanos.
A transformação do prédio em um memorial é uma demanda antiga. Em 2000, durante a gestão de Itamar Franco, foi sancionada a Lei Estadual nº 13.448, criando o Memorial dos Direitos Humanos no local. O tombamento municipal, em 2013, e o estadual, em 2016, reforçaram a importância histórica do edifício.
Atualmente, está em tramitação um requerimento para tombamento federal, com a questão sendo discutida nas esferas federal e estadual, além do Conselho de Direitos Humanos da ONU. A historiadora Débora Raíza Silva, que faz parte da equipe do memorial, explica: “O Ministério Público Federal acredita que a União também tem responsabilidade sobre a ditadura militar, e a justiça definirá a competência para a oficialização deste espaço.”
A Ocupação e a Reabertura do Memorial
Em 2018, o espaço foi formalmente reinaugurado como “Casa da Liberdade”, porém nunca funcionou em sua totalidade. A situação se agravou com a gestão de Romeu Zema (Novo), que resultou em anos de abandono. Críticos apontam que isso representa um processo de apagamento da memória histórica.
No dia 1º de abril de 2025, coletivos e movimentos sociais, organizados no perfil @ocupeomemorial, realizaram uma ocupação do edifício, reabrindo-o à população como Memorial dos Direitos Humanos Ocupado. Desde então, o local passou a promover visitas guiadas gratuitas, atividades culturais e exibições de filmes, além de debates.
Débora relata que cerca de 80 pessoas, com idades entre 18 e 40 anos, participaram da ocupação, que não visava a moradia, mas sim pressionar os governos a reabrir o memorial. “Entraram no prédio sem resistência, pois havia apenas um vigia. Dois policiais foram chamados, mas logo se retiraram.”
Estima-se que mais de 8 mil visitantes participaram das visitas guiadas e cerca de 20 mil estiveram envolvidos em atividades gerais ao longo do último ano.
A Memória como Luta pela Justiça
No dia 1º de abril, movimentos sociais realizaram um ato público em homenagem ao golpe e para comemorar o primeiro ano da ocupação do espaço. O ato não apenas reafirma o repúdio ao golpe de 1964 — que muitos descrevem como “empresarial-militar” devido ao apoio de setores econômicos — mas também celebra a reabertura do espaço ao público. “É essencial que a história não se apague para que erros do passado não se repitam”, afirmou a artesã Fabiana Bezerra.
Para os grupos que ocupam o prédio, a luta transcende a preservação física do espaço, sendo uma questão de impedir o esquecimento de um período em que direitos fundamentais foram sistematicamente violados. O lema “Ditadura nunca mais” ecoa nas mobilizações.
A estudante de História da UFMG, Júlia Carolina da Silva Andrade, 23 anos, enfatiza a importância da ocupação: “Ver esse espaço funcionando é uma grande felicidade, pois as memórias das pessoas que aqui sofreram precisam ser preservadas. As novas gerações devem saber o que aconteceu.”
Visitas ao Memorial e Como Participar
Aqueles que desejam conhecer o Memorial dos Direitos Humanos podem se inscrever para as visitas, que acontecem na Avenida Afonso Pena, 2351, Centro, um local que, em meio à agitação da Savassi, carrega uma das histórias mais dolorosas e necessárias de Belo Horizonte e do Brasil. As visitas têm duração média de 1h30 e permitem explorar as celas, exposições sobre a repressão e outros espaços coletivos. As inscrições devem ser feitas de quinta a domingo, com informações disponíveis no perfil do Instagram do coletivo, incluindo a opção de doações voluntárias via PIX para ajudar na manutenção do espaço.
