Reflexões Musicais sobre o Planeta
Em setembro do ano passado, o multi-instrumentista e cofundador do grupo Uakti, Paulo Santos, já havia compartilhado com a reportagem sobre um novo projeto musical em andamento. O álbum, inicialmente intitulado “Terra”, agora chega ao público como “ÁraTekoha”, disponível a partir desta quarta-feira (8/4) nas plataformas digitais, começando pelo Bandcamp e se expandindo para outras plataformas no dia seguinte.
O disco será oficialmente lançado com um show no Teatro Raul Belém Machado desta quinta-feira (9/4), às 19h30, e a entrada é franca. Santos destaca que o álbum é uma resposta à urgência da preservação ambiental e reflete sobre o distanciamento crescente da humanidade em relação à natureza, uma questão especialmente crítica em Minas Gerais, região marcada pela exploração mineral.
Uma Compreensão Ampla da Existência
Durante o processo criativo, Santos ampliou sua pesquisa para incluir o ar como um elemento essencial à vida, o que o levou a investigar como os povos indígenas percebem esses aspectos da natureza. Essa busca o aproximou de conceitos fundamentais da língua guarani-kaiowá, como “ára” e “tekoha”. Enquanto “ára” abrange uma noção de espaço e tempo, “tekoha” refere-se à maneira de ser e à vida em suas dimensões cultural, ancestral e coletiva. A combinação desses termos sugere um entendimento integrado da existência, onde território, tempo, natureza e espiritualidade estão entrelaçados.
Inspirado por essa visão de mundo, o artista reflete sobre a etnocosmologia indígena, que explora como os povos originários se relacionam com a natureza e o cosmos, incluindo fenómenos como as constelações e os ciclos naturais. “O objetivo é provocar reflexões que incentivem a preservação e nos façam reavaliar nossa relação com o ambiente, retomando a perspectiva dos nossos ancestrais”, explica Santos. “Quando me refiro à Terra, não me limito ao Brasil. É uma consideração global”.
Estruturas Sonoras e Temáticas
Com um total de 11 faixas instrumentais, “ÁraTekoha” é dividido em dois atos. O primeiro ato explora o conceito de “ára” através de solos executados por Santos em instrumentos únicos, muitos deles desenvolvidos em colaboração com a musicista e luthier Josefina Cerqueira, que também trabalhou com o Uakti. Entre as inovações está um “instrumento de duas águas”, permitindo que duas pessoas criem harmonias simultaneamente com a água, além de tubos sonoros de PVC que alteram a maneira de tocar e a sonoridade.
No segundo ato, as composições se voltam para o conceito de “tekoha”, buscando despertar no ouvinte uma nova percepção sobre a Terra e sua conexão com o ambiente ancestral. Faixas como “Vulcão” evocam a força do magma terrestre, enquanto “Coda – Átomo” traz à tona uma reflexão sobre a responsabilidade humana diante das questões climáticas. “Sementes intergalácticas” associa os ciclos da vida ao ato de semear, e “14º Baktun” faz referência ao calendário maia, sugerindo um período de renovação após as previsões de fim do mundo de 2012.
Santos explica que o 14º Baktun representa a transformação que está ocorrendo neste novo ciclo. “O 13º Baktun encerrou em 2012, quando muitos acreditavam que tudo acabaria. O 14º simboliza as mudanças que se seguiram, especialmente com a crise climática cada vez mais evidente”, reflete.
Interpretações e Mensagens
O artista também utiliza metáforas, como a do ovo, que simboliza a origem da vida, mas também sugere a presença do mal, como no conceito do “ovo da serpente”. Em “O ovo planetário”, ele convida à reflexão sobre a origem do universo. Paulo Santos é cauteloso ao afirmar que os temas abordados no álbum não se impõem de forma direta ao ouvinte; a natureza instrumental das faixas proporciona espaço para múltiplas interpretações. Ao apresentar 11 faixas sem letras, ele oferece aos ouvintes uma folha em branco e uma caixa de lápis de cor, permitindo que cada um crie sua própria interpretação.
Informações sobre o Álbum
O álbum “ÁraTekoha”, com 11 faixas, já está disponível em todas as plataformas digitais. O show de lançamento acontece no Teatro Raul Belém Machado, localizado na Rua Leonil Prata, 53, Alípio de Melo, nesta quinta-feira (9/4), às 19h30, com entrada gratuita.
