Uma História de Águas e Renascimento
Guapé, localizada no Sul de Minas Gerais, carrega uma narrativa singular marcada pela água. Desde a década de 1960, quando uma parte significativa do município foi submersa pela formação do Lago de Furnas, a cidade é um exemplo de como águas transformadoras podem alterar destinos. Com ruas, casas e áreas agrícolas desaparecendo, mais de 60 anos depois, o lago que antes representava a perda agora se destaca como um vetor de turismo, investimentos e renovação econômica.
Durante duas semanas, a equipe do g1 Sul de Minas, em parceria com a EPTV, explorou as nuances do Lago de Furnas na expedição especial intitulada “Travessia das Águas”. Essa iniciativa revelou a dimensão do lago, sua importância econômica e as narrativas de quem depende desse recurso natural, considerado um dos maiores reservatórios de água doce do Sudeste e do Brasil. Além de reportagens nas plataformas digitais e nas transmissões da EPTV, um diário de bordo em tempo real permitiu aos espectadores acompanhar os bastidores da expedição.
Geografia e Qualidade da Água
Guapé ocupa uma localização privilegiada no Lago de Furnas, sendo o único município situado entre os dois principais rios que formam o reservatório: o Rio Grande e o Rio Sapucaí. Lenilton Soares, presidente da Associação Guapeense de Turismo (Aguatur), destaca a qualidade ímpar da água na região. “A água aqui é extremamente limpa e profunda para navegação. Guapé possui cerca de 220 quilômetros de orla; é um diamante a ser lapidado”, afirma.
O nome Guapé, oriundo de uma expressão indígena que remete a plantas aquáticas, simboliza os “caminhos nas águas” — um significado que se tornou mais relevante ao longo do tempo.
Impacto da Inundação e a Nova Guapé
A inundação da cidade começou após o fechamento das comportas da Usina Hidrelétrica de Furnas, em 1963. Em questão de meses, a maioria da área urbana original ficou submersa, abrangendo aproximadamente 206 km² do território municipal, incluindo terras férteis. O escritor e ativista cultural Felipe José Dutra recorda que, no momento do anúncio, muitos não acreditaram no que estava por vir. “Foi um momento de desespero”, relembra.
O impacto na população, predominantemente pobre, foi devastador. Os moradores foram forçados a desmantelar suas casas para reaproveitar os materiais, e a nova Guapé foi erguida em áreas mais altas. A cidade se transformou em uma península, cercada pelas águas, enfrentando anos de dificuldades. “As áreas mais planas, propícias para cultivo, estavam submersas. A nova Guapé lutou para se reerguer”, conta Dutra. Com a chegada de novas tecnologias na década de 1970, a agricultura moderna começou a prosperar, revitalizando a economia local.
A Virada Turística e o Potencial de Desenvolvimento
A relação de Guapé com o Lago de Furnas se transformou gradualmente. O que antes era visto como um símbolo de perda, agora é considerado um ativo natural e econômico. Atualmente, Guapé atrai turistas para atividades náuticas, pesca, trilhas e esportes de aventura, recebendo entre 80 mil e 120 mil visitantes anualmente, conforme estimativas da IGR Nascentes das Gerais e Canastra.
O presidente da Aguatur destaca: “O potencial turístico de Guapé é imenso. Além da água, temos agroturismo e uma crescente demanda por enoturismo”, enfatizando a diversidade de opções que a cidade oferece.
Novo Cenário Imobiliário e o Mercado de Alto Padrão
Nos últimos anos, especialmente após a pandemia, Guapé se tornou um destino atrativo para investidores em busca de um estilo de vida mais tranquilo. A corretora Flávia Rangel observa que a demanda por imóveis de alto padrão aumentou significativamente, com compradores oriundos de São Paulo, Belo Horizonte, Rio de Janeiro e até do exterior. Empreendimentos que incluem marinas, helipontos e aeródromos estão se tornando comuns. “Os visitantes agora podem chegar por diferentes meios, incluindo lancha e helicóptero”, explica Rangel, reforçando a transformação de Guapé em um destino completo dentro do Lago de Furnas.
Valorização e Desafios Econômicos
A economia local está em plena ascensão, impulsionada pelo crescimento do setor da construção civil, bem como pela expansão de bares, restaurantes e pousadas. “O mercado de alto padrão não existia aqui há dez anos. Hoje, a procura explodiu”, comenta o corretor Éverton Rubens Teixeira, mencionando que terrenos que custavam R$ 80 mil há três anos agora são vendidos por R$ 160 mil. A movimentação econômica também gerou novas oportunidades de trabalho, desde pilotos de lancha até camareiras.
Crescimento Sustentável e Planejamento Urbano
A rápida expansão suscita preocupações sobre a infraestrutura e o planejamento urbano. A administração municipal está atenta e busca um desenvolvimento equilibrado. O prefeito Pedro Luis Simões (PL) afirma que a prioridade é estruturar a cidade antes de empreendimentos de grande porte: “Estamos organizando a casa, investindo em acessos, saúde e planejamento urbano. O crescimento precisa ser seguro e sustentável”.
Entre Memória, Água e Futuro
Guapé é um exemplo de resiliência, carregando em sua essência a narrativa de duas cidades: a submersa e a que se ergueu após a inundação. O lago, que causou rupturas profundas, transformou-se em um ativo valioso para o município. “Furnas foi uma ruptura completa. A cidade teve que mudar até a forma de enxergar o mundo”, conclui Felipe Dutra.
