Encontro reforça educação popular e compromisso social no campo
Entre os dias 29 e 31 de julho, aproximadamente 100 educadores, militantes e parceiros se reuniram no IX Encontro Estadual das Educadoras e Educadores da Reforma Agrária, realizado no Centro de Formação Francisca Veras (CFFV), em Governador Valadares (MG). O evento, organizado pelo Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST), teve como lema “Movimento Sem Terra: por escola, terra e dignidade!” e foi marcado por uma programação intensa de debates, oficinas práticas e momentos de mística, reafirmando o compromisso do MST com uma educação do campo popular, emancipada e conectada às realidades das comunidades.
Logo na abertura, a mística estabeleceu o tom do encontro, enfatizando a importância da organização coletiva e da busca por novos caminhos para a educação nos territórios rurais. O encerramento reforçou esse compromisso, com um convite para que a caminhada continue em cada assentamento, acampamento e sala de aula, superando as barreiras do latifúndio e do preconceito.
Pedagogia do Movimento: teoria e prática em diálogo constante
Um dos pontos altos do encontro foi a reflexão sobre a Pedagogia do Movimento, apresentada pela educadora Roseli Caldart, doutora em Educação e integrante do Setor de Educação do MST. Ela destacou que o MST se caracteriza pela articulação entre formação coletiva, abrangência nacional e a união entre teoria e prática. “É uma marca do MST ser coletivo, nacional e juntar teoria e prática”, afirmou.
Roseli ressaltou que essa pedagogia está em constante construção e já ultrapassa as fronteiras do MST, tornando-se referência para outras experiências educativas. “A Pedagogia do Movimento é uma pedagogia em construção. Pois já é uma referência para além do MST e da educação do campo. Isso é algo que nos orgulha, nos honra, mas também nos responsabiliza.”
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Desafios da educação inclusiva e antirracista
Durante os debates, a educação para a transformação social também abordou temas urgentes, como a luta contra a LGBTIfobia. Aline Luana Oliveira, do Coletivo LGBTI+ Sem Terra, conduziu a mesa “Educação para transformação: desafios da educação anti-LGBTIfóbica nas escolas do campo”, destacando a construção social de gênero e a necessidade de combater a violência estrutural contra pessoas LGBTI+. Ela também levantou a importância das redes sociais na disputa por narrativas que possam desconstruir essas violências.
Outro tema central foi a educação antirracista, tratado por Andréia Roseno, docente universitária e consultora em relações étnico-raciais. Ela refletiu sobre o papel da memória e identidade na construção dos sujeitos coletivos e apontou o racismo estrutural como um elemento que naturaliza privilégios e desigualdades históricas na sociedade brasileira. Roseno também discutiu o desafio de um Estado laico que garanta a formulação de políticas públicas inclusivas, livres de convicções religiosas particulares.
Círculos de Cultura: diálogo e imaginação para a transformação
A programação incluiu ainda oficinas baseadas na metodologia dos Círculos de Cultura, inspirada na pedagogia de Paulo Freire. Matilde Lima, da direção do Setor de Educação do MST em Minas Gerais, explicou que essa prática busca superar a aula tradicional, promovendo espaços coletivos de aprendizagem a partir de temas geradores extraídos da realidade dos participantes.
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Essa abordagem foi vivenciada nas oficinas de teatro, pintura e artes visuais, reforçando a conexão entre formação política, cultura e participação coletiva. Elis Carvalho, educadora popular e assentada na Zona da Mata, destacou que o encontro valorizou essas metodologias integradas, que fortalecem a educação nos territórios e geram materiais e experiências que serão levados para assentamentos e acampamentos.
Os Círculos de Cultura têm origem na década de 1960, durante a experiência de alfabetização em Angicos (RN), conduzida por Paulo Freire. Essa metodologia rompe com o ensino verticalizado, colocando educadores e educandos no mesmo nível de construção do conhecimento, a partir das realidades vividas pelas comunidades.
O encontro em Minas Gerais reforça, assim, o compromisso do MST com uma educação que une teoria e prática, valoriza a diversidade e luta contra as desigualdades históricas, promovendo processos educativos que dialogam com os desafios concretos do campo e estimulam a organização popular.
