Conflito entre militarização e parceria público-privada
A Escola Estadual João Paulo I, situada no Bairro Santa Inês, em Betim (RMBH), está no centro de um debate que mexe com a estrutura do ensino na região. De um lado, a ameaça concreta de substituição por uma unidade do Colégio Tiradentes, mantido pela Polícia Militar. Do outro, a possibilidade crescente de privatização da infraestrutura escolar via parceria público-privada (PPP). A visita da Comissão de Educação, Ciência e Tecnologia da Assembleia Legislativa de Minas Gerais (ALMG), liderada pela deputada Beatriz Cerqueira (PT), expôs a apreensão da comunidade escolar diante dessas incertezas.
Uma escola referência em ensino médio integral profissionalizante
O Colégio João Paulo I é uma das poucas instituições no Estado que oferece ensino médio integral profissionalizante. Com cerca de 350 alunos matriculados, a escola conecta a formação acadêmica ao mercado de trabalho por meio de seis cursos técnicos: desenvolvimento de sistemas, segurança do trabalho, química, mecatrônica, automação e manutenção de máquinas industriais. A estrutura inclui laboratórios equipados, biblioteca, quadra coberta, acessibilidade e um refeitório que serve quatro refeições diárias. Com 70 funcionários, metade deles professores, o colégio funciona das 7h às 16h20, com atividades extracurriculares que ampliam o aprendizado.
A qualidade do ensino se reflete no desempenho no Enem, que coloca o colégio entre os destaques nacionais. Esse mérito levou três estudantes a participarem de programas de intercâmbio no Ensino Médio na Austrália e na Argentina, enquanto outro aluno retornou do Uruguai. Atualmente, 84 estudantes têm a chance de concorrer a vagas no mesmo programa. Fundada em 1967 no bairro Decamão, a escola é parte importante da história local e referência para a comunidade.
Comunidade escolar sob tensão e falta de comunicação oficial
O anúncio inicial da militarização da escola aconteceu via redes sociais do governo estadual, em maio, sem comunicação formal à direção do Colégio João Paulo. A mudança faria parte da transformação de 32 escolas em unidades do Colégio Tiradentes, que integra o Sistema de Ensino da Polícia Militar de Minas Gerais e prioriza familiares de militares na oferta de vagas. Essa alteração interromperia a formação profissionalizante oferecida atualmente e limitaria o acesso dos atuais alunos ao ensino no local.
Após meses de incerteza, em 24 de agosto, o governo estadual divulgou que a escola constaria no programa de PPP que prevê a privatização da infraestrutura de 95 escolas estaduais em Minas Gerais. O contrato, assinado em 30 de junho, prevê investimento de R$ 6,7 bilhões em um prazo de 25 anos, com a empresa Opy, controlada pelo fundo IG4 Capital e associada ao banco BTG Pactual, vencedora da concorrência internacional realizada na B3.
Impactos para os profissionais e estudantes da escola
Mesmo com a visita recente da empresa vencedora para avaliação da infraestrutura, a direção da escola relata falta de informações claras do governo sobre os próximos passos. A comunidade escolar permanece unida, mas apreensiva. O professor Verivaldo Rodrigues Lopes, com quase 30 anos de atuação na instituição, expressa o sentimento: “Não somos contra o Colégio Tiradentes, só que não queremos ele aqui. Nós não queremos sair pois aqui está a nossa história”.
Durante a visita da deputada Beatriz Cerqueira, cerca de 100 pessoas, entre estudantes, pais, funcionários, líderes comunitários e representantes de entidades como a União Municipal dos Estudantes Secundaristas (Umes) e o Sindicato Único dos Trabalhadores em Educação de Minas Gerais, se reuniram para manifestar preocupação. Muitas auxiliares de serviço de educação básica (ASB) temem a demissão, já que a PPP pode extinguir esses postos, exceto para quem atua nas cantinas.
Questionamentos sobre escolha da escola profissionalizante para privatização
Um ponto levantado pela comunidade é a escolha da escola profissionalizante de tempo integral para a PPP, quando outras opções menos impactantes estariam disponíveis em Betim (RMBH). A prefeitura já teria oferecido um terreno na Avenida Juiz Marco Túlio Isaac, no Bairro Betim Industrial, para a instalação do Colégio Tiradentes, que permanece vazio. Além disso, uma escola pública no Bairro Citrolândia com infraestrutura pronta foi fechada recentemente, mas não foi aproveitada para esse fim.
Beatriz Cerqueira questiona a estratégia do governo estadual: “Parece preferir essa confusão toda para dificultar que a gente se organize”. Pais também demonstram preocupação com o futuro dos estudantes. Ronaldo Celso da Silva, pai de aluno do curso de manutenção de máquinas industriais, comenta: “Por que não procuram outra escola que não tenha ensino integral? Se acabar a escola, para onde meu filho vai? O que ele já estudou vai ser perdido?”
Necessidade de respostas oficiais para a comunidade
A diretora Janaína de Paula Oliveira pretende reunir o colegiado escolar para solicitar um posicionamento formal da superintendência de ensino e da Secretaria de Estado de Educação. “Precisamos de um esclarecimento por escrito para levar para a comunidade, uma resposta do que vai acontecer com a nossa escola”, afirma. A gestora também lamenta a falta de transparência até o momento, que gera ansiedade e desgaste entre servidores, estudantes e famílias.
O cenário revela um quadro delicado em que políticas públicas de educação repercutem diretamente na vida cotidiana de professores, estudantes e comunidades locais. A expectativa agora é por definições claras que apontem para a continuidade ou transformação da Escola Estadual João Paulo I, respeitando seu papel histórico e sua contribuição para a formação profissional em Betim (RMBH).
