Oscilação nos preços da batata afeta consumidores e produtores
Os gaúchos têm enfrentado uma verdadeira montanha-russa nos preços da batata-inglesa ao longo do primeiro semestre de 2026. Dados do Departamento Intersindical de Estatística e Estudos Socioeconômicos (Dieese) mostram que, em Porto Alegre, o valor médio do quilo da batata subiu de R$ 3,60 em janeiro para R$ 8,79 em junho, uma alta de 144,2%. Apesar da redução para R$ 5,43 em agosto, o tubérculo ainda acumula uma alta de 34,07% no ano e de 37,47% nos últimos 12 meses. Essa instabilidade tem reflexos diretos no orçamento das famílias, que convivem com a volatilidade dos preços no supermercado e na feira.
Produtores enfrentam desafios financeiros e climáticos
Enquanto o consumidor vê preços elevados, o que pagam aos produtores não acompanha a mesma trajetória. Segundo João Paulo Bernardes Deleo, pesquisador do Cepea Esalq/USP, o ano tem sido “desafiador” para o cultivo da batata no Brasil. Apesar de picos nos preços pagos pela saca de 25 kg em maio e junho, o valor médio oscilou bastante, começando o ano com cotações baixas e caindo novamente nos meses mais recentes. Essa divergência entre preço ao consumidor e ao produtor evidencia uma crise no setor que envolve instabilidade climática e pressão sobre os custos de produção.
Impacto do El Niño e custos elevados pressionam a oferta
O presidente da Associação Brasileira de Batata In Natura (Abbin), Marcos Boschini, aponta que o fenômeno climático El Niño causou altas temperaturas e chuvas acima da média em Minas Gerais e São Paulo, prejudicando a produtividade no primeiro semestre. A expectativa é que o Rio Grande do Sul e o Paraná enfrentem problemas semelhantes, o que deve reduzir a oferta nacional e elevar os preços a partir de dezembro. Apesar da demanda do consumidor estar limitada pela renda, a oferta está em retração, e regiões como Triângulo Mineiro e Bahia têm ampliado áreas de cultivo para tentar compensar as perdas no Sul. No entanto, essa expansão dificilmente será suficiente para equilibrar o mercado interno.
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Elevados custos de produção dificultam sustentabilidade do setor
Produzir batata no Brasil custa entre R$ 55 mil e R$ 70 mil por hectare, considerando desde o plantio até o beneficiamento final. Os maiores gastos são com mão de obra, sementes e arrendamento de terra, além de irrigação em algumas regiões. Em polos industriais, como São Francisco de Paula, os produtores enfrentam concorrência da batata pré-frita importada, cujos preços se aproximam ou até ficam abaixo dos custos nacionais. Atualmente, cerca de 65% da produção é destinada ao consumo in natura e 35% à indústria, sendo que 37% da batata industrializada consumida no país é importada, principalmente da Argentina, Bélgica e Holanda.
Plantio atrasado no Rio Grande do Sul e impacto na safra
No Rio Grande do Sul, o plantio da batata começou, mas o excesso de chuvas tem atrasado o calendário. Segundo Orlando Junior Kramer Velho, extensionista da Emater/RS-Ascar, apenas 5% das lavouras estão plantadas neste momento, contra uma quantidade considerável em anos anteriores. Apesar do atraso, ele não vê isso como um sinal negativo para a safra, já que outras culturas terão área reduzida, o que pode beneficiar a batata. O Estado conta com 872 unidades produtivas e uma área cultivada de mais de 18 mil hectares, com uma produção estimada de 608,3 mil toneladas e produtividade média de 33,5 toneladas por hectare. Bom Jesus lidera a produção gaúcha, com produtores que mantêm a tradição do cultivo iniciada na década de 1980.
Produtores enfrentam mercado crítico e buscam alternativas
Elizando Wonsovicz, produtor de Bom Jesus, destaca que o mercado está “crítico” nos últimos dois anos, impactado por secas e chuvas excessivas. Ele também aponta que o preço recebido está abaixo do necessário para cobrir os investimentos. O aumento do consumo de batata industrializada, especialmente a pré-cozida importada, contribui para a pressão sobre os produtores nacionais, que enfrentam altos custos e carga tributária elevada, dificultando a competitividade das indústrias brasileiras.
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Fonte: diariofloripa.com.br
Declínio no consumo e necessidade de reinvenção do setor
O consumo de batata in natura por brasileiro caiu de 16 quilos por pessoa ao ano para cerca de 12 quilos. Para Marcos Boschini, isso reflete uma questão cultural, já que no Brasil a batata é vista como um legume, diferente de países europeus e da Argentina, onde é tratada como alimento básico e fonte importante de carboidrato. O setor reconhece a necessidade de se reinventar para recuperar espaço nas dietas e no mercado.
História e relevância da batata na alimentação mundial
Originária dos Andes, a batata tem papel fundamental na história alimentar mundial. No século XIX, chegou ao Brasil trazida por imigrantes europeus, consolidando-se principalmente nas regiões Sul e Sudeste. A importância do tubérculo transcende a agricultura, chegando até a arte, como nas pinturas de Vincent van Gogh, que retratou a simplicidade do campo e a batata como símbolo da vida rural.
