Inovação na Pesquisa sobre Envenenamento por Serpentes
Desde a infância, algumas pessoas têm uma clara trajetória na ciência que desejam seguir, enquanto outras encontram seu caminho por meio de projetos que as surpreendem. Caso típico é o de Jacqueline Sachett, 46 anos, professora da Universidade do Estado do Amazonas (UEA), que recentemente recebeu o prêmio Para Mulheres na Ciência. Concedido pela L’Oréal em parceria com a Academia Brasileira de Ciências (ABC) e a Unesco, o prêmio visa promover e apoiar a pesquisa realizada por mulheres, com bolsas de R$ 50 mil.
O projeto de Jacqueline se foca em acidentes envolvendo animais peçonhentos, especialmente as jararacas, serpentes do gênero Bothrops. Sua pesquisa investiga a eficácia de terapias a laser para reduzir infecções e acelerar a recuperação do tecido nas áreas afetadas por picadas de serpentes.
“Referências no estudo de doenças tropicais, que trabalham com o mesmo tema da minha pesquisa, reconhecem meu trabalho e me citam. Isso não tem preço”, afirmou Jacqueline à Folha, durante a cerimônia de premiação no Palácio da Cidade, no Rio de Janeiro, no início deste mês.
A trajetória científica da mineira, natural de Conselheiro Lafaiete, é marcada por sua formação em enfermagem, inicialmente voltada para o atendimento clínico de pacientes em diálise. Sua curiosidade e desejo por um impacto maior a levaram a um mestrado em nefrologia na Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG). Anos depois, ela recebeu a oportunidade de se mudar para a região Norte do país e concorreu a uma vaga na Fundação de Medicina Tropical da UEA, onde foi aprovada.
Com uma nova base na UEA, Jacqueline se sentiu motivada a ingressar em um doutorado, mas enfrentou um desafio: o programa não oferecia especializações em enfermagem. “O que eu poderia estudar aqui? Não tinha nefrologia”, relembra. Depois de analisar as opções, percebeu que o tema dos envenenamentos por animais poderia ser uma boa conexão, já que Minas Gerais tem registros significativos de acidentes e muitos de seus pacientes em diálise apresentavam um histórico de picadas, com recuperação mais lenta.
Dados do Ministério da Saúde indicam que, até novembro do ano passado, Minas Gerais foi o segundo estado com mais notificações de acidentes com serpentes, totalizando 3.450 casos, atrás apenas do Pará, que registrou 5.016. Em todo o Brasil, o número de notificações chegou a 32.425, resultando em 128 óbitos, com outros dois casos ainda em investigação. Este cenário é alarmante, especialmente considerando que o único tratamento efetivo disponível no Brasil é o soro antiofídico, produzido pelo Instituto Butantan, em São Paulo.
A pesquisa de Jacqueline se concentrou na eficácia de antibióticos para prevenir infecções secundárias após picadas de serpentes. Sob a orientação de Luiz Carlos de Lima Ferreira, um pesquisador aposentado da Fundação de Medicina Tropical, e a coorientação de Wuelton Monteiro, Jacqueline se aprofundou no tema. “Acabei me tornando ‘envenenada’ pela pesquisa”, diz com um sorriso.
Com o doutorado, emergiu uma linha de pesquisa inovadora em acidentes com animais peçonhentos, levando à criação do Centro de Pesquisa Clínica em Envenenamento por Animais (Cepclam), onde Jacqueline e Wuelton se tornaram referências na área. Apesar da eficácia do soro, o tecido afetado frequentemente apresenta danos que demoram a cicatrizar, podendo resultar em sequelas, inclusive neurológicas.
“O soro neutraliza o veneno no corpo, mas não resolve os danos locais. Nossa pesquisa visa melhorar a qualidade de vida do paciente e minimizar complicações. Estamos explorando a fotobiomodulação, uma terapia a laser de baixa intensidade, que já é utilizada em odontologia, mas que ainda não foi testada em casos de picadas venenosas”, esclarece Jacqueline.
A pesquisa em laboratório com ratos e ensaios clínicos liderados por sua equipe indicam uma redução de até 50% nos danos aos tecidos após o uso da fototerapia. O Cepclam é atualmente o único centro no mundo realizando ensaios clínicos com pacientes internados por envenenamento.
Jacqueline acredita que o prêmio que recebeu pode elevar a visibilidade do tema, que é muitas vezes negligenciado, especialmente em áreas com menos recursos. “Espero que o tema ganhe mais atenção e que as pesquisas nessa área recebam o financiamento que merecem”, finaliza a professora.
