Uma Viagem no Tempo: O Retorno do Carnabelô
O Carnaval de Belo Horizonte, como o conhecemos hoje, passou por profundas transformações ao longo dos anos. Nos anos 1990, a cidade pulsava com grandes trios elétricos e o contagiante axé da Bahia, que tomavam conta da Avenida Afonso Pena. O que hoje é um evento estruturado e diversificado, naquela época se destacou por uma folia vibrante, conhecida como Carnabelô. Para aqueles que viveram esse capítulo da história, o nome traz lembranças nostálgicas; já para os mais jovens, pode ser apenas uma curiosidade.
Agora, quase 30 anos depois da última edição, o Carnabelô está de volta, prometendo reavivar as emoções de sua época áurea. Marcado para o dia 31 de janeiro, o evento carrega o tema “é saudade que bate no meu coração”, uma frase que já ressoa entre os antigos foliões e novos admiradores da cultura carnavalesca.
O Legado do Axé
Inspirado nos moldes do Carnaval de Salvador, o Carnabelô surgiu em um momento em que micaretas como Carnatal e Fortal ganhavam força no Brasil. Leonardo Dias, idealizador do evento, recorda como a influência do Carnaval baiano moldou a festa em BH. “Em 1993, eu e meu sócio Froilan visitamos o Recifolia e aquilo mudou nossa forma de ver o Carnaval”, relembra.
A primeira edição do Carnabelô ocorreu em junho de 1994, transformando a capital mineira em um reduto do axé. “Foi um marco. A cidade estava repleta de pessoas, com atrações de peso, como Netinho e Cheiro de Amor”, conta Leo. A Polícia Militar estimou a presença de cerca de um milhão de foliões, um verdadeiro testemunho da paixão do belo-horizontino pelo Carnaval.
O entusiasmo de Leo ao sobrevoar a Avenida Afonso Pena de helicóptero é contagiante. “Era impossível ver o asfalto, só havia gente por todos os lados. Isso quebrou a ideia de que BH não gosta de Carnaval”, enfatiza.
Memórias de uma Geração
Pessoas como Raquel Azevedo, de 42 anos, guardam com carinho as memórias do Carnabelô. “Esperávamos o ano todo por essa festa. As maiores bandas baianas estavam presentes e a cidade parava. A atmosfera era incrível”, relata. Ela menciona os problemas que começaram a surgir ao longo do tempo, mas destaca que a essência do Carnabelô era única.
Cristina Costa, de 61 anos, também se recorda das emoções de participar daquela época. “Costumava comprar dois abadás, do Cheiro de Amor e do Asa de Águia. Foi uma época mágica”, lembra, agora tocando em um bloco que homenageia o ícone baiano, Chiclete com Banana.
Abadás e o Sentido de Pertencimento
Nos anos 90, a festa era marcada por um contexto diferente, dependendo praticamente do financiamento privado por meio da venda de abadás e camarotes. “O abadá sempre simbolizou pertencimento para mim, como a camisa de um time. Era a identificação com o bloco e a música”, diz Leo.
O evento passou por quatro edições na Avenida Afonso Pena, além de edições em Contagem e no Parque da Gameleira. Com a evolução das regras para eventos de rua e o crescimento da cidade, o formato acabou se adaptando e cedeu espaço a festivais em locais fechados, como o Axé Brasil.
Um Reencontro Promissor
Depois de quase 30 anos, a ideia de um reencontro ganhou vida. “O projeto surgiu organicamente, através de mensagens em grupos de WhatsApp. Em poucos dias, uma onda de nostalgia tomou conta, e a saudade virou um movimento”, explica Leo.
Marcado para 31 de janeiro, o reencontro acontecerá a partir das 13h, no entorno do Estádio do Mineirão, com concentração na Avenida Abraão Caran. Leo destaca que, apesar de não ser uma réplica do antigo Carnabelô, a festa irá reunir blocos e artistas que fizeram parte daquela história.
A programação conta com o Bloco Come Queto e Reinaldinho, seguidos pelo Bloco Belo Pirô, que promete animar a todos com os sucessos do Cheiro de Amor. O encerramento ficará por conta do Bloco Uai, com Tuca Fernandes. Leo conclui: “São três blocos, três artistas e três histórias que representam a ligação da cidade com o Carnaval”.
