Pesquisa da UFMG Investiga a Relação entre Áreas Verdes e Aves Urbanas
Como as áreas verdes de Belo Horizonte impactam a diversidade de aves na cidade? Essa questão foi o foco do estudo intitulado “How management practices shape the ‘local habitat signature’ that modulates bird communities in urban green spaces”, publicado na revista Biotropica no final de 2022. Pesquisadores da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG) buscaram entender como as características de espaços verdes urbanos, como o tipo de vegetação e a cobertura do solo, afetam as comunidades de aves nas regiões de Belo Horizonte.
Tulaci Bhakti, um dos autores do artigo, desenvolveu essa pesquisa como parte de sua tese de doutorado no Programa de Pós-Graduação em Ecologia, Conservação e Manejo de Vida Silvestre do Instituto de Ciências Biológicas (ICB) da UFMG. O estudo envolveu a observação de 60 pontos estratégicos na cidade, correlacionando as características ambientais com dados de comportamento, dieta e peso de 148 espécies de aves. Os resultados indicam que as características locais, moldadas pela gestão dos espaços verdes — como a presença de corredores ecológicos ou parques — influenciam diretamente a seleção das espécies de aves que habitam cada área.
“Nossa intenção era compreender como o ambiente urbano e a infraestrutura se relacionam com as aves, especialmente se a presença de áreas verdes como parques, praças e corredores ecológicos impacta as espécies que frequentam essas localidades. Entender o impacto do crescimento urbano na conservação das aves é vital para promover um desenvolvimento sustentável da cidade”, explica Bhakti.
Abordagem Metodológica e Resultados do Estudo
Os 60 locais analisados abrangem desde a região Norte da cidade, na Mata Isidora, até a região Sul, na Mata da Baleia, englobando as duas principais bacias hidrográficas de Belo Horizonte: as bacias do Onça e do Arrudas. A metodologia do estudo foi cuidadosamente elaborada em etapas. Inicialmente, as imagens de satélite foram utilizadas para identificar áreas verdes. Em seguida, Bhakti visitou cada um dos pontos para observar as aves e catalogar a vegetação local. Por fim, foi realizada uma análise sobre os padrões de uso dos ambientes pelas aves observadas.
“As aves se comportam de maneiras diferentes: algumas preferem forragear no solo, outras ficam em locais com folhagens, e há aquelas que buscam ambientes mais sombreados. Durante a estação chuvosa, em que as aves mais territoriais costumam vocalizar intensamente, visitei cada ponto cinco vezes, passando cerca de 20 minutos em cada um para observar e gravar os cantos das aves”, relata o pesquisador.
Propostas para a Gestão das Áreas Verdes Urbanas
Após a coleta de dados em campo, Tulaci Bhakti analisou a literatura existente sobre a ecologia das aves observadas para entender melhor os padrões de ocorrência nas áreas mapeadas. Segundo ele, a caracterização dos locais pode servir como base para a gestão urbana, permitindo que as prefeituras realizem intervenções que beneficiem a biodiversidade. “O que podemos aprender a partir das áreas com maior diversidade para replicar em locais semelhantes?”, questiona Bhakti.
Ele também menciona que sua tese propõe um Índice de Adequabilidade Urbana à Biodiversidade, discutido em outro artigo. Para desenvolver esse índice, os pesquisadores analisaram diferentes camadas urbanas e de biodiversidade, levando em conta fatores como comércio, fluxo de veículos e iluminação pública. “Nosso objetivo era identificar áreas com menor ruído e fluxo de pessoas e confrontar essas características com os pontos onde as aves eram mais abundantes”, explica.
A Importância das Áreas Verdes para a Sustentabilidade Urbana
O estudo de Bhakti enfatiza a necessidade de preservar as áreas verdes urbanas não apenas para a conservação das aves, mas também como uma estratégia para mitigar os efeitos das mudanças climáticas e proteger nascentes. “Esses espaços desempenham um papel essencial na regulação do clima da cidade, mas muitas vezes não são considerados áreas de conservação, o que as torna vulneráveis”, alerta.
O pesquisador destaca que a pesquisa proporcionou uma nova perspectiva sobre Belo Horizonte, já que exigiu visitas a locais que ele não costumava frequentar. “Visitei cada área cinco vezes: uma para reconhecimento, três para catalogação das aves e uma para análise da vegetação. Essa experiência me fez sentir um cidadão mais envolvido com a cidade”, reflete.
Atualmente, Tulaci Bhakti está negociando com a Prefeitura de Belo Horizonte para desenvolver um corredor de biodiversidade que otimize o manejo das áreas verdes urbanas, garantindo a conservação da fauna silvestre em harmonia com o uso público. “Mostramos que até mesmo áreas urbanizadas, cercadas por construções e superfícies impermeabilizadas, podem ser vitais para a proteção das aves, devido à diversidade de ambientes que oferecem”, conclui.
