Expectativas do Setor Produtivo Mineiro
As entidades que representam a economia de Minas Gerais veem com otimismo o avanço do acordo entre a União Europeia (UE) e o Mercosul, anunciado na última sexta-feira (9). Contudo, as expectativas são diversas. Enquanto o agronegócio projeta um aumento nas exportações e uma redução nas barreiras comerciais impostas pela Europa, o setor industrial manifesta preocupação e ressalta a necessidade de atenção aos impactos que a nova zona de livre comércio pode ocasionar.
Antônio de Salvo, presidente da Federação da Agricultura e Pecuária do Estado de Minas Gerais (Faemg), declarou que o acordo, que se arrasta há mais de 20 anos, representa um avanço significativo para o setor agropecuário. “Acredito que um livre comércio com a Europa é uma boa notícia para o agronegócio brasileiro. Este segmento é altamente competitivo e sustentável. A possibilidade de negociar sem as barreiras impostas pela União Europeia será extremamente vantajosa. Com um histórico de 26 anos de negociações, é sempre benéfico ter condições de comércio livre, onde somos competitivos, como é o caso do agronegócio em Minas”, afirmou.
Cautela da Indústria Mineira
A Federação das Indústrias do Estado de Minas Gerais (Fiemg) também reconheceu o potencial do acordo, mas destacou a importância de uma avaliação cuidadosa dos efeitos sobre as empresas locais. A entidade acredita que a medida pode beneficiar setores como o de café, mineração, siderurgia e indústrias automotivas. No entanto, adverte que outros segmentos, mais suscetíveis à concorrência externa e que dependem de normas sanitárias e regulatórias, devem ser monitorados.
Flávio Roscoe, presidente da Fiemg, enfatizou: “É crucial que a implementação do acordo considere períodos de adaptação e ofereça instrumentos que reforcem a competitividade da indústria mineira. Isso é fundamental para que possamos gerar empregos e agregar valor às nossas exportações”.
Visão Econômica e Impactos na Indústria
O economista Bruno Carazza, doutor em direito econômico pela Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), destacou que o acordo tende a beneficiar mais o agronegócio, que ganhará maior acesso ao mercado consumidor europeu. No entanto, ele também reconhece que a indústria de Minas Gerais será impactada de forma mista.
“Temos um setor automobilístico robusto e diversas áreas na indústria metal-mecânica. A entrada de equipamentos, software e tecnologias mais acessíveis da Europa é positiva para todas as indústrias locais, pois permitirá que empresários mineiros adquiram produtos a preços reduzidos, especialmente maquinário e insumos, aumentando assim a produtividade”, explicou o economista.
Por outro lado, Carazza aponta que a concorrência aumentará, especialmente para produtos finais. “O Brasil implementará tarifas menores, o que possibilitará a entrada de produtos europeus a preços competitivos. Setores como o de alimentos, vestuário e higiene poderão enfrentar uma concorrência acirrada com os bens que chegam da Europa”, alertou.
Minas Gerais e a União Europeia
De acordo com dados do governo de Minas Gerais, o estado foi o terceiro maior exportador para a União Europeia em 2024. Neste ano, cerca de 20% das exportações mineiras tiveram como destino o continente europeu, sendo essa a segunda principal região de exportação do estado, atrás apenas da Ásia, que abocanhou 47,2% das vendas externas.
Os principais produtos mineiros exportados para a União Europeia são ferro-ligas, minérios de ferro, celulose e café, que juntos representaram 80,3% do total das exportações para o bloco. O fluxo comercial entre Minas Gerais e a Europa alcançou mais de US$ 9,3 bilhões, com um superávit significativo de US$ 3,1 bilhões.
Próximos Passos do Acordo
O próximo passo para a concretização do acordo é sua assinatura, agendada para o dia 17, conforme informações do Ministério das Relações Exteriores da Argentina. Para que o tratado entre em vigor, no entanto, ele ainda precisa ser aprovado pelos congressos dos países sul-americanos.
O objetivo do acordo é facilitar o comércio entre os países dos dois blocos, reduzindo impostos e eliminando burocracias na troca de produtos. Na prática, isso significa que mercadorias como carne, soja, café e minérios do Mercosul poderão acessar o mercado europeu com maior facilidade, enquanto produtos europeos, como veículos, medicamentos e maquinário, terão custos reduzidos para entrar nos países sul-americanos.
