Pesquisas Revelam Contaminação Persistente
Após o rompimento da barragem de Fundão, na cidade de Mariana, em Minas Gerais, a situação dos peixes no rio Doce continua alarmante. Um estudo que analisou 503 espécimes, incluindo lambaris, cascudos, jundiás e mandis, constatou que muitos destes peixes ainda apresentam elevados índices de contaminação por metais pesados e outras substâncias tóxicas. Publicados na revista Total Environment Advances, os dados indicam que o consumo desses peixes continua sendo considerado inseguro, mesmo após um período em que se observou uma diminuição da poluição na água.
A pesquisa, realizada em 2019 e apoiada pela FAPESP, foi conduzida por cientistas da Universidade Estadual Paulista (Unesp) e da Universidade Federal do Paraná (UFPR). Os resultados mostraram que a Bacia do Rio Doce ainda apresenta contaminação, com a presença de 13 metais, incluindo alumínio, bário, cádmio, cobalto, cromo, ferro, lítio, manganês, níquel, chumbo e zinco.
Riscos à Saúde Humana Aumentam
Entre os metais detectados, o cádmio, o cromo e o chumbo excederam os limites de segurança e representam riscos significativos à saúde. O cromo e o cádmio são conhecidos por sua potencialidade cancerígena, enquanto o chumbo está associado a problemas neurológicos, incluindo a diminuição do coeficiente de inteligência e distúrbios de memória. O ferro e o manganês se destacaram por serem os contaminantes mais frequentes nos peixes examinados.
Flávia Yamamoto, professora visitante da Universidade Federal do Ceará (UFC) e uma das autoras do estudo, destacou que, mesmo após cinco anos do desastre, os peixes ainda estão contaminados. “Embora tenha havido uma redução na contaminação da água logo após o desastre, os peixes continuam apresentando altos níveis de metais e substâncias tóxicas”, afirma. Ela ressalta a necessidade de investigações independentes com maior frequência para monitorar a situação.
Um Desastre Sem Precedentes
O rompimento da barragem de Fundão, de responsabilidade da mineradora Samarco, que é controlada pela Vale e pela BHP, é considerado um dos maiores desastres de mineração mundial. O acidente resultou na morte de 19 pessoas, deixou mais de 600 desabrigadas e despejou cerca de 34 milhões de metros cúbicos de rejeitos de minério de ferro no rio Doce. A bacia hidrográfica abrange 230 municípios em Minas Gerais e Espírito Santo, com impactos que se estenderam até o oceano.
Efeitos Crônicos da Contaminação
Os efeitos da contaminação na Bacia do Rio Doce são preocupantes, especialmente no que se refere à exposição crônica a poluentes. Esses poluentes podem se acumular ao longo do tempo, resultando em consequências para a saúde que, à primeira vista, podem parecer inofensivas. Yamamoto destaca que poucos estudos têm abordado essa questão de forma profunda, o que aumenta a urgência da pesquisa.
A análise focou na bioacumulação de contaminantes nos peixes, além de avaliações químicas da água e dos sedimentos. A equipe também fez uma análise de risco à saúde humana, considerando tanto os efeitos cancerígenos quanto não cancerígenos associados ao consumo de pescado, com o apoio de Larissa Ajala Batista, da UFPR.
Desafios para as Comunidades Ribeirinhas
Denis Abessa, professor da Unesp e supervisor do pós-doutorado de Yamamoto, menciona que a situação é crítica para as comunidades que dependem do peixe como fonte de alimento e renda. “As populações ribeirinhas e tradicionais, que historicamente vivem da pesca, enfrentam um dilema cruel: arriscar a saúde a longo prazo ou lutar contra a fome e a insegurança alimentar”, conclui Abessa. Essa dualidade levanta questões graves sobre a recuperação da bacia e quais níveis de contaminação são considerados realmente seguros para a saúde pública.
