Desafios da Economia Mineira
Minas Gerais se destaca como a segunda maior economia do Brasil, contribuindo com 38% do Produto Interno Bruto (PIB) da região Sudeste. Um estudo recente da Fundação Getulio Vargas (FGV) revela nuances cruciais desse cenário, revelando tanto os pontos fortes quanto as fraquezas da economia local. Embora o estado seja um grande exportador de commodities, como minério de ferro e produtos agrícolas, também enfrenta uma considerável dependência de importações de produtos transformados.
A investigação intitulada “Relações Comerciais Extraterritoriais por Região e UF”, da FGV, mostra que uma alta parte da produção mineira é destinada ao mercado interno. Com isso, Minas mantém quase um terço do que produz, contribuindo para a movimentação e diversificação da economia local, ao mesmo tempo em que reduz a dependência de exportações.
Uma Economia Vibrante e Diversificada
Para Alisson Batista, especialista em finanças e professor da Estácio BH, essa característica revela que Minas possui um ciclo econômico dinâmico, com riqueza sendo gerada em diversos setores, apesar de alguns obstáculos relacionados à oferta de produtos. “Estamos em uma posição privilegiada. A pecuária mineira, por exemplo, é altamente valorizada, assim como as commodities agrícolas, como milho e soja cultivados no Triângulo Mineiro. Além disso, estima-se que cerca de 80% do café premium mundial é produzido em regiões do Sul de Minas. Os municípios dessas áreas têm uma produção robusta que garante uma base sólida de receitas para o estado, tanto para o mercado interno quanto para as exportações. Embora ainda necessitemos importar alguns insumos para a indústria e outros setores, isso não diminui a força econômica de Minas, uma vez que grande parte das atividades é realizada localmente”, analisa Batista.
Interdependência e Importações
Apesar de ressaltar as potencialidades da economia mineira, o professor Márcio Antônio Salvato, reitor do Ibmec, vê a alta demanda por importações de forma positiva. Para ele, Minas é uma economia interdependente, que precisa tanto vender quanto comprar para equilibrar seu desempenho econômico. Esse conceito é evidente nas relações comerciais do estado. No setor de produtos transformados, que envolvem matérias-primas processadas, a China, os Estados Unidos e a Argentina respondem por aproximadamente 50% das importações mineiras.
A China, em particular, ampliou sua participação entre 2018 e 2024, especialmente com a importação de produtos químicos, eletrônicos e equipamentos industriais. Em contrapartida, a principal rota de exportação dos produtos da indústria extrativa mineira também é direcionada à China, sendo os minerais metálicos os itens mais exportados.
No que diz respeito aos produtos agropecuários, cerca de 25% da produção mineira é destinada à China, Estados Unidos e Alemanha. O estado figura como o quarto maior rebanho bovino do Brasil, com destaque na exportação de produtos metalúrgicos e alimentícios, que compõem cerca de 70% das exportações do estado, sendo novamente a China, os Estados Unidos e a Argentina os principais destinos.
Déficit e Oportunidades na Indústria de Transformação
Salvato também aponta aspectos menos otimistas em relação à indústria de transformação. “Observando os números, percebemos um déficit neste setor. Aproximadamente 45,4% dos produtos são importados, enquanto apenas 33,9% são exportados. O déficit na indústria de transformação é evidente, já que quase 36% das nossas importações são lamentavelmente produtos transformados”, explica.
Ele critica a tendência de exportar commodities sem realizar a transformação necessária. “Exportamos, por exemplo, café in natura, em vez de seu derivado, o café processado. O mesmo ocorre com a laranja, que muitas vezes é exportada sem ser transformada em suco. Por isso, é essencial que Minas se torne mais competitiva na transformação de produtos, para agregar valor à sua produção”, conclui.
Investimentos em Energia para o Futuro
Com essa interdependência econômica, Minas Gerais enfrenta uma crescente demanda por energia, necessitando de investimentos para atender às demandas dos diversos setores. Batista ressalta que, apesar de Minas Gerais ter uma geração de energia limpa expressiva, outros estados têm se destacado mais no investimento em energias renováveis, como eólica e solar. “Historicamente, temos bacias hidrográficas excepcionais, o que possibilita uma geração de energia limpa. No entanto, nos acomodamos, pois poderíamos ter avançado na implementação de usinas solares há bastante tempo”, critica.
Atualmente, a Companhia Energética de Minas Gerais (Cemig) é a única fornecedora de energia, o que limita a concorrência e a inovação no setor. “O estado precisa urgentemente de mais infraestrutura e também de incentivar que empresas e cidadãos gerem sua própria energia”, finaliza Alisson Batista, destacando a importância desse movimento para o fortalecimento da economia mineira.
