Desafios da Saúde na Amazônia e a Necessidade de Mudanças
Uma equipe de pesquisadores brasileiros defende, em um artigo publicado na renomada revista British Medical Journal, a urgente necessidade de reformulação dos sistemas de saúde na Amazônia. Diante do cenário das mudanças climáticas, eventos extremos e insegurança alimentar, a proposta é que esse redesenho considere os saberes tradicionais, assim como as especificidades das comunidades locais. Com a realização da COP30 na Amazônia e a elaboração de um plano nacional de saúde e clima pelo Ministério da Saúde, o artigo traz à tona discussões cruciais sobre o Sistema Único de Saúde (SUS) na região.
Os pesquisadores sugerem a criação de indicadores que respeitem as particularidades da Amazônia e propõem a valorização de práticas de cuidado que se adaptem ao território de forma mais eficiente. Para Gabriela Di Giulio, professora da Faculdade de Saúde Pública da Universidade de São Paulo (FSP-USP) e coautora do artigo, a saúde deveria ser um protagonista nas discussões sobre a emergência climática. “O setor de saúde entrou tardiamente no debate sobre a emergência climática e, em particular, no tema da adaptação. No entanto, ele deveria ser protagonista, visto que os eventos extremos, como ondas de calor e enchentes, têm se intensificado, afetando cada vez mais pessoas”, evidencia.
Integração de Saberes Tradicionais e Científicos
Os especialistas ressaltam que para repensar a saúde na Amazônia é essencial integrar saberes tradicionais, científicos e políticos. Assim, entre as sugestões apresentadas, destaca-se a implementação de vigilância em saúde fundamentada nas práticas e epistemologias indígenas. “Valorizar os conhecimentos tradicionais sobre alimentação e práticas dietéticas é fundamental para conter a disseminação de alimentos ultraprocessados”, afirmam. Um exemplo dessa abordagem híbrida já é observado em algumas áreas, onde parteiras utilizam tanto práticas biomédicas quanto ancestrais para oferecer cuidados em regiões extensas e de difícil acesso.
Os pesquisadores propõem um modelo que reconhece os rios e a floresta como parte ativa nos processos de adaptação climática, além de considerar os povos tradicionais como detentores de conhecimentos essenciais para a sobrevivência. O conceito de “territórios fluidos” é amplamente discutido na atuação da Fiocruz Amazônia. Leandro Giatti, professor da FSP-USP e coautor do artigo, explica que o rio é crucial para o acesso à saúde, mas a imprevisibilidade das cheias e secas pode isolar comunidades inteiras, tornando a assistência médica inviável. “Nas últimas secas, em 2023 e 2024, muitas comunidades ficaram sem acesso a postos de saúde devido à falta de transporte”, afirma.
Risco à Sociobiodiversidade e a Visão Holística dos Povos Indígenas
Di Giulio adverte que a insistência no modelo de desenvolvimento atual, caso os acordos climáticos não sejam cumpridos, pode colocar em risco a própria sociobiodiversidade da região. Essa diversidade é fundamental para mitigar os danos sociais e os impactos da emergência climática. Os povos indígenas, por sua vez, possuem uma visão holística da saúde, que abrange aspectos espirituais, sociais e ambientais. Doenças como malária e COVID-19 são vistas não apenas como problemas biológicos, mas como reflexos do desequilíbrio causado por ações humanas e pelo desrespeito à natureza.
O artigo destaca ainda que a Amazônia, historicamente, tem sido tratada como um território a ser explorado, sem levar em conta os direitos e a presença dos povos indígenas, o que resultou em perdas significativas de biodiversidade e na saúde das populações locais. A implementação de políticas públicas que respeitem esses direitos é essencial para a preservação da saúde física e mental das comunidades.
Contribuições de um Dossiê sobre Saúde e Mudanças Climáticas
Além do artigo sobre a reformulação dos sistemas de saúde amazonenses, o grupo de pesquisadores também publicou outros três artigos que compõem um dossiê focado nas interações entre saúde e mudanças climáticas. Um dos artigos explora as lições que as lideranças femininas indígenas do rio Negro aprenderam durante a pandemia de COVID-19. Outro discute novas formas de governança socioambiental na Amazônia e seu impacto no enfrentamento das mudanças climáticas. O quarto artigo analisa as contradições que o Brasil enfrenta ao sediar a COP, enquanto realiza atividades como a exploração de petróleo e aprova leis que prejudicam o meio ambiente.
“Neste dossiê, buscamos uma abordagem decolonial, baseada em nossas pesquisas e experiências, para enfatizar temas que emergem das singularidades do Sul global, desafiando as narrativas dominantes dos periódicos que costumam refletir a visão do Norte global”, conclui Di Giulio. O grupo de pesquisa conta com a colaboração de profissionais da FSP-USP, Universidade de Brasília, Universidade Federal do Amazonas, Fiocruz-Amazônia e Escola Nacional de Saúde Pública Sérgio Arouca.
