A Estratégia de Eduardo Cunha para Dominar o Cenário Político Mineiro
Em Minas Gerais, diz-se que a política se desenrola em sussurros e por trás das portas pesadas das instituições. Eduardo Cunha, ex-presidente da Câmara dos Deputados e figura influente na política nacional, parece ter encontrado a fórmula para se reposicionar. Longe da exposição intensa de Brasília e da polarização que toma conta de redes sociais como o X (anteriormente conhecido como Twitter), Cunha está executando um plano audacioso: reconstruir seu poder focando na capilaridade regional por meio do rádio.
A iniciativa de Cunha em Belo Horizonte e sua expansão para cidades do interior não se trata apenas de uma diversificação de negócios. É, na verdade, um reposicionamento estratégico no cenário político. Enquanto novos políticos se perdem em disputas virtuais, Cunha aposta em uma mídia tradicional, que ainda tem um peso significativo na formação da opinião pública em Minas: o rádio.
Poder Sem Mandato: A Geometria do Prestígio
Na dinâmica da política mineira, a influência de um microfone pode ser tão poderosa quanto a de um mandato. Eduardo Cunha compreendeu que não precisa de um cargo formal para ser uma figura central nas decisões que moldarão o futuro político, especialmente em 2026. Ao controlar emissoras de rádio, ele conquista o que o sociólogo Pierre Bourdieu chamou de “capital simbólico”.
Com isso, não é necessário que Cunha vote em projetos no plenário. Ele pode moldar os temas discutidos nas praças públicas e nas mesas de jantares na capital. O rádio, nesse cenário, oferece a Cunha uma vantagem que o processo judicial quase lhe retirou: o respeito institucional que ele mantém nos bastidores. O controle sobre a audiência se traduz em acesso às elites; e esse acesso permite que ele defina o valor das alianças.
O Interior como Ponto Estratégico: Capilaridade e Controle
A estratégia de Cunha é sofisticada, especialmente pelo posicionamento territorial. Ao expandir sua rede para o interior de Minas, ele estabelece uma comunicação contínua com prefeitos e vereadores. Em uma região onde a internet é, muitas vezes, um luxo limitado, o rádio se torna a fonte de informação indispensável para a população.
Cada nova emissora sob sua administração funciona como um verdadeiro consulado político. Essas emissoras criam relações de dependência e prestígio que, apesar de invisíveis nas tendências de Brasília, exercem uma influência significativa na formação de chapas proporcionais e estaduais. Cunha está, na prática, construindo um “seguro político” de longo prazo: quem controla a narrativa local nunca é completamente excluído do jogo nacional.
O Silêncio que Inquieta
O que mais perturba a classe política mineira não é tanto o que Cunha diz, mas o silêncio que ele mantém em público. Ao invés de discursos apaixonados, sua atuação se caracteriza pela estratégia cuidadosa. Sua presença em Belo Horizonte se faz notar pela articulação sutil, pelo trânsito discreto e pela força de agenda que suas emissoras começam a impor.
O retorno de Cunha não representa um retorno à política de palanque, mas sim um retorno à política estrutural. Ele está voltando ao cenário político por meio de uma abordagem que não depende da aprovação de tribunais ou da volatilidade do eleitorado nas redes sociais. Escolheu ser ouvido antes de voltar a ser visto, consolidando assim uma nova fase em sua trajetória política.
