A Trágica Realidade dos Atingidos
“Precisam nos ouvir. Precisam vir até os territórios atingidos e ver a fome, a morte e o desespero que fazem parte da nossa rotina diária”. A frase de Geisa Cristina reflete a situação desesperadora que muitos enfrentam desde o rompimento da barragem da Vale em Brumadinho, que resultou na morte de 272 pessoas e deixou um rastro de destruição na bacia do Rio Paraopeba. Este dia 25 de janeiro marca os sete anos dessa tragédia sem precedentes na história do Brasil.
O relato de Geisa, moradora da comunidade Monte Calvário em Betim, é um eco de muitas vozes que compartilham suas experiências de luto e sofrimento. Apesar das promessas de reparação, a realidade é dura: o rio continua poluído, as compensações financeiras são lentas e a saúde da população permanece gravemente afetada.
Impactos na Saúde Mental e Física
Uma pesquisa da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), realizada pelo Projeto Brumadinho, revelou dados alarmantes em dezembro de 2025: cerca de 70% dos lares em Brumadinho relataram algum tipo de adoecimento físico ou mental. Márcia Costa, residente da área ribeirinha de Juatuba, exemplifica esse impacto, lutando contra a obesidade e transtornos alimentares provocados pela ansiedade. “Após o rompimento, ganhei 20 quilos. O estado de depressão e ansiedade tomou conta de muitos de nós”, desabafa.
Na cidade de Brumadinho, Cláudia Saraiva carrega a dor da perda de familiares. “Meu cunhado e meu afilhado foram vítimas do rompimento”, conta emocionada. Para ela, a cidade não é mais um lugar feliz. “Todos na minha família adoeceram de alguma forma”, revela, mencionando sua própria batalha contra a fibromialgia, uma condição resultante do estresse pós-traumático.
O estudo da UFMG ainda aponta a prevalência de sintomas como estresse, insônia e hipertensão entre a população. Além disso, 52% dos adultos buscaram tratamento psicológico ou psiquiátrico desde a tragédia, refletindo a gravidade da situação emocional da comunidade.
Desafios Econômicos e Sociais
Os desafios enfrentados pelos moradores de Brumadinho vão além das questões de saúde. O professor Ricardo Machado Ruiz, um dos pesquisadores da UFMG, estima que a cidade poderia sofrer uma perda de R$ 7 bilhões a R$ 9 bilhões em Produto Interno Bruto (PIB) no longo prazo sem um acordo de reparação, assinado em 2021. Com os recursos aplicados, esse prejuízo pode cair para R$ 4,2 bilhões a R$ 5,4 bilhões, mas continua significativo.
Além disso, o Programa de Transferência de Renda (PTR), instituído para ajudar a população afetada, foi encerrado em outubro de 2025. Muitas pessoas relatam perdas financeiras severas, pois o aumento dos preços e a contaminação do solo e da água comprometeram suas atividades agrícolas. “Muitas pessoas perderam trabalho e renda. O que temos hoje não garante dignidade”, lamenta Geisa.
O Luto e a Luta por Justiça
A sensação de injustiça permeia a vida daqueles que perderam entes queridos. Maria Regina da Silva, mãe de Priscila, uma das vítimas, expressa a dor de não ter encontrado o corpo completo da filha. “A única reparação verdadeira é a justiça e a responsabilização de quem causou essa tragédia”, afirma.
Enquanto isso, o processo judicial para responsabilizar os réus pelo rompimento da barragem avança lentamente. Em outubro de 2025, a Justiça Federal rejeitou preliminares das defesas dos acusados e deu início a uma nova fase de instrução, que deverá se estender até maio de 2027. “Minha filha era muito amada. Para quem perdeu, não existe reparação. O que queremos é justiça”, conclui Maria Regina.
Mobilizações e a Necessidade de Mudanças
As mobilizações dos atingidos foram cruciais para garantir alguns dos direitos conquistados ao longo desses anos. “Precisamos nos organizar, participar de reuniões e denunciar as injustiças. Nossos representantes muitas vezes nos viraram as costas”, critica Geisa. Para Gustavo Schiavinato Vitti, do Movimento pela Soberania Popular na Mineração, a luta continua essencial para assegurar que os direitos da população sejam respeitados e que a reparação integral aconteça. “É necessário repensar toda a estrutura do modelo mineral e garantir que a renda gerada possa beneficiar a comunidade, não apenas as mineradoras”, afirma.
Sete anos após a tragédia que devastou Brumadinho, a mineração voltou a ser uma realidade na região, com a exploração da Mina da Jangada, o que aumenta a preocupação com a saúde e a segurança hídrica dos moradores. “Estamos apreensivos com a exploração, que pode afetar nossos recursos hídricos”, finaliza um morador, expressando o temor que permanece na comunidade.
