Os Efeitos do Acordo Mercosul-União Europeia na Economia Brasileira
Recentemente, o Mercosul e a União Europeia formalizaram um acordo de livre comércio, após mais de duas décadas de negociações. Assinado em 17 de janeiro no Paraguai, o Acordo de Parceria Mercosul-União Europeia promete integrar mercados que somam aproximadamente 720 milhões de pessoas. Entretanto, especialistas alertam para os impactos negativos que esse acordo pode trazer ao Brasil, com um foco especial no setor agrícola.
A expectativa do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea) é que, com o novo acordo, o Brasil obtenha o maior crescimento econômico entre os países dos dois blocos. No entanto, a análise crítica de especialistas revela preocupações com os riscos sociais, ambientais e econômicos que os latino-americanos, especialmente os brasileiros, poderão enfrentar. A redução das tarifas pode perpetuar a especialização do Brasil em exportações de commodities, como soja, minério, café e carne bovina.
Valter Pomar, diretor da Fundação Perseu Abramo e professor de relações internacionais na Universidade Federal do ABC, destaca que, embora o agronegócio possa se beneficiar no curto prazo, o Brasil ficará prejudicado a longo prazo, reforçando a dependência em produtos primários e dificultando a necessária industrialização.
Minas Gerais e os Impactos do Acordo
Minas Gerais, um estado com forte dependência de sua economia em setores como a mineração e o agronegócio, enfrenta desafios significativos. Especialistas consultados pelo Brasil de Fato MG afirmam que o acordo possui uma abordagem neoliberal que pode limitar as oportunidades de reindustrialização e aumentar a pressão sobre o meio ambiente local.
Historicamente, as negociações do acordo começaram na década de 1990, com o objetivo de integrar economicamente dois dos maiores blocos econômicos do planeta. Contudo, as discussões se arrastaram devido a divergências nos termos e à resistência europeia. Além disso, o Brasil decidiu focar em outras alianças multilaterais, como os BRICS, ao longo das últimas décadas.
A proposta central do acordo envolve uma liberalização tarifária abrangente, afetando tanto setores industriais quanto agrícolas de ambos os blocos. O acordo abrange um PIB conjunto de aproximadamente 22,4 trilhões de dólares, e o Itamaraty projeta um crescimento de 0,34% no PIB brasileiro com a implementação do tratado, além de um aumento nos investimentos.
Controvérsias e Críticas ao Acordo
Os setores agrícolas da Europa, especialmente os franceses, têm se oposto ao acordo. Recentemente, agricultores franceses protestaram contra a parceria, destacando os possíveis danos que o tratado traria à agricultura local. O presidente francês, Emmanuel Macron, deixou claro que Paris seria contra o acordo, citando a limitada vantagem econômica para a França e para a Europa.
Weslley Cantelmo, doutor em Economia, enfatiza que, apesar de algumas melhorias nas negociações recentes, o acordo ainda é estruturalmente problemático para o Brasil. Ele ressalta que a economia brasileira pode ser inundada por produtos europeus, prejudicando o desenvolvimento de sua indústria. Para Cantelmo, a nova política industrial do Brasil corre o risco de ser comprometida com a redução das tarifas, que abrem as compras públicas para empresas europeias, um aspecto crucial para o fortalecimento da indústria nacional.
O Futuro do Agronegócio e o Impacto Ambiental
Os economistas Pomar e Cantelmo alertam que o verdadeiro beneficiário do acordo é o agronegócio brasileiro, que se tornará ainda mais poderoso. Eles apontam que esse poder econômico pode se traduzir em influência política, permitindo que setores do agronegócio e da mineração se tornem ainda mais dominantes.
A pressão sobre a exploração de recursos naturais já é evidente em Minas Gerais, onde a expansão agrícola e a mineração irresponsável afetam ecossistemas locais, como o Cerrado e a Mata Atlântica. A expectativa é que essa situação se agrave com a implementação do acordo, levando a um aumento do desmatamento e à degradação ambiental.
Desafios e Oportunidades Futuras
Com a ratificação do acordo prevista em breve, especialistas como Pomar e Cantelmo alertam que as chances de melhorias nas condições negociadas são mínimas. O foco deve estar em uma política industrial robusta que possibilite um crescimento econômico sustentável e a criação de demanda interna. Sem isso, o Brasil poderá permanecer em um ciclo vicioso de dependência de produtos primários.
As vozes críticas ao tratado estão se tornando cada vez mais isoladas. Enquanto o governo e alguns analistas promovem o acordo, os riscos ambientais e sociais são frequentemente ignorados. O futuro do Brasil no comércio internacional depende não apenas de sua capacidade de competir, mas também da construção de um modelo de desenvolvimento que priorize a sustentabilidade e a justiça social.
