Mudanças no Sisu Impactam Notas de Corte
No mais recente levantamento sobre o Sistema de Seleção Unificada (Sisu) 2026, 92 dos 93 cursos de Medicina registraram um aumento significativo nas notas de corte, o que gerou críticas entre os estudantes. De acordo com informações obtidas pelo GLOBO e analisadas pelo estatístico Frederico Torres, a média de pontuação necessária para garantir uma vaga no concorrido curso subiu de 795 para 804 pontos, um acréscimo de nove pontos em relação ao ano anterior. A única exceção foi a Universidade Estadual de Maringá (UEM), que apresentou uma redução em sua nota de corte.
A nota de corte é a pontuação mínima exigida para aprovação em cada curso e pode variar anualmente, influenciada por diversos fatores. Um deles é a mudança na oferta de vagas disponíveis. Por exemplo, a Universidade Federal de Uberlândia (UFU) viu sua nota de corte saltar de 799 para 842, um aumento chocante de 43 pontos. Segundo Torres, essa variação se deve principalmente ao novo sistema que altera os pesos das provas no cálculo final da nota dos candidatos.
No entanto, o especialista acredita que o aumento generalizado das notas de corte é reflexo direto das mudanças implementadas no Sisu. Em novembro passado, o Ministério da Educação (MEC) anunciou que, pela primeira vez, o sistema permitiria que os candidatos utilizassem mais de uma nota do Exame Nacional do Ensino Médio (Enem) para se inscrever nas vagas. Essa alteração gerou insatisfação entre muitos estudantes que estão completando o ensino médio, pois poderão concorrer apenas com uma única nota, enquanto candidatos mais velhos podem usar até três notas do Enem.
Universidades em Foco
Instituições como a Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), a Universidade Federal do Ceará (UFC) e a Universidade Federal do Piauí (UFPI), que não alteraram suas regras em 2026, também registraram significativas variações nas notas de corte, entre 8 e 11 pontos. Como ressalta Torres, essa oscilação é especialmente preocupante em cursos extremamente concorridos como Medicina, onde até mesmo uma pequena diferença de pontos pode ser decisiva para a aprovação.
O MEC, em sua defesa, afirmou que as mudanças no Sisu visam modernizar o sistema, priorizando a segurança da informação e a integridade dos dados. Segundo a pasta, o aumento nas notas de corte é resultado da dinâmica competitiva entre os candidatos e não reflete necessariamente um problema com a qualidade dos alunos.
Críticas e Preocupações com o Novo Sistema
No entanto, para Torres, o aumento nas notas de corte não é visto como algo negativo, mas a nova regra poderia distorcer as listas finais de aprovados, permitindo que candidatos chamados de “colecionadores de aprovação” — aqueles que, mesmo com notas altas, não têm intenção real de se matricular — ocupem vagas, prejudicando quem realmente deseja estudar. Ele observa que a situação será mais clara nos próximos meses, à medida que as listas de espera forem divulgadas.
Em um estudo anterior, Torres analisou a edição do Sisu que selecionou alunos para o segundo semestre de 2023. Dos 50 aprovados em Medicina na Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), 46 já tinham sido aprovados em outros cursos, sendo 43 para Medicina e três na própria UFRJ. Ele notou também que, dos 50 aprovados, apenas sete efetivaram a matrícula, evidenciando a problemática originada pelo modelo de seleção.
Desafios de Transparência no Sisu
Surpreendentemente, nesta edição, o MEC não divulgou uma lista consolidada de aprovados, uma prática que, segundo críticos, compromete a transparência do processo. O ministério, liderado por Camilo Santana, justificou a mudança alinhando-a com diretrizes de proteção de dados pessoais e segurança da informação. Enquanto algumas universidades publicaram suas próprias listas, o MEC destacou que isso respeita a autonomia administrativa de cada instituição.
Torres, por sua vez, defende que a divulgação da lista de aprovados é crucial para garantir a transparência do processo. Ele argumenta que essa informação é vital para que alunos que não foram aprovados possam tomar decisões mais informadas sobre suas próximas etapas. “É importante que os estudantes saibam em que condições estão competindo, especialmente em instituições como a UFMG, que têm um histórico de muitas aprovações em edições passadas do Sisu,” finaliza o professor.
