A Revelação de um Encontro Não Registrado
O presidente do Banco Central, Gabriel Galípolo, não informou a Roberto Campos Neto sobre uma reunião ocorrida no Palácio do Planalto em 4 de dezembro de 2024. O encontro, que contou com a presença do fundador do Banco Master, Daniel Vorcaro, e do presidente Luiz Inácio Lula da Silva, suscitou controvérsias no setor financeiro. Na data do encontro, Campos Neto ocupava o cargo de presidente do BC, enquanto Galípolo era diretor de Política Monetária da instituição.
O Poder360 buscou um comentário do Banco Central sobre o episódio, mas a resposta foi de que não haveria manifestação. É importante destacar que os diretores do BC possuem autonomia e não precisam relatar seus compromissos ao presidente da autarquia. Dessa forma, ao manter o encontro em sigilo, Galípolo não infringiu nenhuma norma vigente no órgão.
No entanto, em dezembro de 2024, já circulavam rumores no mercado sobre problemas de liquidez do Banco Master. A instituição estava oferecendo aos clientes Certificados de Depósito Bancário (CDBs) com uma taxa de rendimento de 240% do CDI, algo claramente atípico. Mesmo assim, Galípolo não considerou necessário compartilhar com Campos Neto os detalhes do encontro, que poderia ter implicações significativas.
O Encontro e Seus Participantes
Atualmente, não há informações detalhadas sobre o que foi discutido durante a reunião no Planalto. Também não se sabe ao certo quais foram as pautas conversadas por Daniel Vorcaro nas outras três ocasiões em que ele foi registrado como visitante da sede do governo federal. Vale lembrar que o Banco Master foi liquidado pelo BC em novembro de 2025 e, durante 2023 e 2024, Vorcaro frequentou a Presidência da República pelo menos quatro vezes.
Após sua prisão em novembro do ano passado, Vorcaro conseguiu ser libertado após 11 dias, mas ficou com o passaporte apreendido e passa a utilizar uma tornozeleira eletrônica. O Master, que protagonizou o maior rombo bancário da história do Brasil, está sob investigação conduzida pelo ministro Dias Toffoli, do Supremo Tribunal Federal, que já divulgou os depoimentos de diversos envolvidos.
No encontro realizado em 4 de dezembro, além de Lula, Vorcaro e Galípolo, estavam presentes também Guido Mantega, ex-ministro da Fazenda e, à época, lobista do Banco Master, Rui Costa, ministro da Casa Civil, Alexandre Silveira, ministro de Minas e Energia, e Augusto Lima, então CEO do Banco Master. De acordo com relatos, Vorcaro apresentou a Lula suas intenções de, por meio do Master, desafiar o monopólio do setor bancário, que é dominado por grandes instituições.
Durante a reunião, o banqueiro mencionou que o BTG, de André Esteves, havia demonstrado interesse na aquisição do Master, mas sempre com a condição de que a transação seria feita por uma quantia simbólica de apenas R$ 1, o que levantou questionamentos sobre a viabilidade da proposta.
Pressionado, Vorcaro questionou diretamente Lula se deveria vender o banco ou continuar a operação na tentativa de trazer uma maior concorrência ao setor bancário brasileiro. Lula, em resposta, criticou abertamente Campos Neto, que estava prestes a deixar o cargo, e expressou confiança de que a nova gestão sob Galípolo seria capaz de administrar melhor a situação do Banco Central. O presidente também fez comentários desfavoráveis a Esteves e aconselhou Vorcaro a não vender o Banco Master.
Falta de Transparência e Implicações Futuras
A reunião em questão ocorreu logo após um encontro entre Guido Mantega e Marco Aurélio Santana Ribeiro, conhecido como Marcola, um dos assessores mais próximos de Lula. A audiência entre Mantega e Marcola foi oficialmente registrada no sistema do Planalto apenas em 27 de dezembro, mas o registro era incompleto, mencionando apenas Mantega como representante de interesse próprio, sem citar os outros participantes.
Embora Mantega tenha comparecido com Daniel Vorcaro, o relato oficial falhou em documentar a presença de outros indivíduos que participaram do encontro. Lula só passou a comentar publicamente sobre o caso do Banco Master em janeiro de 2026, após a liquidação da instituição. Em um evento realizado em Maceió (AL) no dia 23 de janeiro, o presidente afirmou que “falta vergonha na cara” de quem defende Vorcaro, reiterando que o governo não influencia nas decisões do Banco Central.
No dia seguinte, 29 de janeiro, o ministro da Fazenda, Fernando Haddad, reforçou que Lula assegurou a Vorcaro que as decisões sobre o futuro do Banco Master seriam técnicas e tomadas exclusivamente pela autarquia financeira.
