Intervenções e Protestos em BH
No último domingo (8 de março), o Dia Internacional da Mulher, a Casa de Marias, uma rede de apoio a mulheres vítimas de violência, realizou uma intervenção impactante na Praça da Liberdade, em Belo Horizonte. O ato foi uma homenagem às 160 mulheres que perderam a vida em decorrência do feminicídio no estado de Minas Gerais entre 2025 e os primeiros meses de 2026. A instalação de 159 cruzes simbolizava o luto e a necessidade de reconhecimento dessas vidas perdidas, segundo Laura Costa, integrante da instituição. Ela enfatizou a urgência da luta: “Para que o 8 de março possa existir, a gente precisa estar viva. Infelizmente, soubemos da morte de mais uma mulher, atingida por 30 facadas em Santa Luzia, e por isso levantamos mais uma cruz em sua memória”.
O crime chocante ocorreu durante a madrugada do domingo, quando o filho mais velho da vítima, uma criança de apenas 10 anos, acionou a polícia após presenciar a agressão do pai. Ao chegarem ao local, os agentes encontraram a mulher já sem vida, com 30 perfurações de faca. Outras duas crianças, uma menina de 5 anos e outra de 8, também estavam presentes na casa, despertando ainda mais a indignação da comunidade. O principal suspeito da agressão fugiu e, até o momento, não foi encontrado. O relacionamento do casal durou cerca de sete anos, e a união foi oficializada apenas dois meses antes do crime.
No decorrer da manifestação, membros da Casa de Marias conversaram com os frequentadores da praça, reiterando a importância da luta por direitos e proteção. “Nesse 8 de março, mais do que flores, precisamos lutar para que nenhuma mulher mais precise morrer”, destacou Laura ao dialogar com um senhor que passava pelo ato.
Protestos de Mobilização e Conscientização
Mais cedo, a capital mineira recebeu outro protesto, organizado pela Articulação de Mulheres Brasileiras (AMB). A concentração começou às 9h30 na Praça Raul Soares e seguiu pela Avenida Amazonas até a Praça Sete. A AMB, uma das principais organizadoras dos atos, enfatizou a necessidade de denunciar a violência contra a mulher, além de outras pautas, como a defesa da revisão da escala de trabalho 6×1, que sobrecarrega as mulheres com a dupla jornada. Dados do IBGE mostram que as mulheres dedicam quase o dobro do tempo aos afazeres domésticos em comparação aos homens: 21,3 horas contra 11,7 horas por semana, segundo a Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios Contínua (PNAD 2022/2023).
As marchas das mulheres convocadas pela AMB se espalharam por diversas cidades do Brasil, abordando temas como críticas ao imperialismo e a defesa da soberania nacional, refletindo a luta das mulheres em várias vertentes sociais e políticas.
Iniciativas Governamentais e Ações Concretas
O alarmante aumento de feminicídios no Brasil, com um crescimento de 4,7% em comparação ao ano anterior, levou o governo federal a implementar uma série de iniciativas para conter a violência de gênero. Entre fevereiro e março de 2026, mais de 5.000 pessoas suspeitas de agressões foram presas em operações conjuntas de forças de segurança. Esses dados foram divulgados pelo Ministério da Justiça, destacando a mobilização de polícias para o combate ao feminicídio.
No início deste mês, o Ministério das Mulheres lançou a Agenda Nacional do Março das Mulheres, que abrange uma série de ações, incluindo inaugurações e lançamentos de pesquisas que visam fortalecer políticas públicas voltadas à proteção e autonomia das mulheres. A iniciativa busca a articulação entre os Poderes Executivo, Legislativo e Judiciário para prevenção e combate à violência contra mulheres e meninas, alinhando-se ao Pacto Nacional de Enfrentamento ao Feminicídio.
Arte e Reflexão sobre a Violência de Gênero
O Centro Cultural Banco do Brasil (CCBB) em Belo Horizonte também está promovendo uma reflexão sobre a violência de gênero através da mostra “Marlene Barros: tecitura do feminino”, que reúne obras da artista contemporânea maranhense Marlene Barros. Uma das peças, intitulada “Eu tenho a tua cara”, compõe um mosaico de rostos femininos, simbolizando a luta contra a violência. Marlene, em entrevista, ressaltou: “Eu troco os olhos e bocas delas para falar dessa ideia de cumplicidade de que tanto precisamos para sobreviver”. A artista também lamentou o alarmante índice de feminicídios, que atualmente registra uma mulher morta a cada seis horas no Brasil.
A mostra, que segue em cartaz até 1º de junho, é uma oportunidade de reflexão e conscientização sobre a grave realidade enfrentada pelas mulheres no país. A visitação é gratuita, permitindo que mais pessoas possam se engajar nessa importante discussão sobre a violência de gênero.
