A Semente que Germinou em 1986
Em suas palavras, Jean Giono nos ensina que “para que um personagem seja verdadeiramente grande, ele deve servir a uma causa maior do que si mesmo.” Essa citação ressoa fortemente ao analisarmos a trajetória de Afonso Augusto Borges Filho, nascido em Belo Horizonte em 10 de março de 1962. Borges não planta árvores, mas livros e leitores, transformando cidades que antes careciam de uma vocação literária. Desde os 16 anos, ele escreve para jornais, mas em 1986, aos 24 anos, lançou o projeto Sempre um Papo. No início, a iniciativa era modesta: encontros presenciais com autores seguidos de lançamentos de obras, realizados sem pompas ou grandes patrocínios. Era simplesmente um jornalista, um autor e um público que ainda estava se conscientizando da necessidade daquele espaço.
Quase quatro décadas depois, o que começou como uma simples semente floresceu em uma verdadeira floresta literária. Com mais de oito mil eventos realizados e um público que ultrapassa dois milhões de pessoas, Afonso Borges alcançou mais de trinta cidades em oito estados brasileiros, incluindo uma temporada emblemática na Casa de América, em Madri. Assim como na parábola de Giono, a bolota de Borges agora brilha também na Europa.
O Método Silencioso de um Pastor
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Tal como Elzéard Bouffier, que plantava suas árvores sem alarde, Afonso Borges adota um método semelhante. Há 26 anos, ele apresenta o programa Mondolivro na Alvorada FM, um espaço diário dedicado à literatura, em um momento em que muitos consideram o rádio uma mídia em declínio. A persistência nesse cenário fragmentado é um ato de resistência.
Contudo, a maior contribuição de Borges está em seus festivais literários. Em 2012, ele fundou o Fliaraxá, em Araxá, Minas Gerais. A escolha da cidade, que não era um centro literário óbvio, foi deliberada; Borges acreditava que o deserto é o lugar onde a floresta pode fazer mais diferença. O sucesso do evento foi tanto que, em 2018, ele foi homenageado como cidadão honorário da cidade. O plantio das sementes literárias se espalhou para outras iniciativas como o Flitabira (2021), o Fliparacatu (2023) e o Flipetrópolis (2024), estabelecendo um mapa de festivais que interconecta cidades que, de outra forma, poderiam nunca ter uma livraria independente ou um espaço literário.
Construindo uma Floresta Cultural
Borges vê os festivais como muito mais que uma simples oportunidade de venda de livros; eles devem envolver profundamente a comunidade, oferecendo oficinas, exposições e a participação de artistas locais. Para ele, a literatura não é apenas um produto, mas sim um ecossistema que deve interagir com o espaço ao seu redor.
Além disso, Borges tem uma visão política em seu trabalho, mesmo que isso raramente seja declarado abertamente. Ele acredita que a literatura brasileira vive um momento de transformação, com a ascensão de vozes de escritores negros como Itamar Vieira Júnior e Jefferson Tenório, que narram o Brasil sob a perspectiva dos marginalizados. Dar espaço a essas vozes é uma missão que ele leva a sério.
Reconhecimento e Silêncio das Raízes
A trajetória de Afonso Borges é marcada por honrarias que reconhecem seu impacto cultural. Ele foi agraciado com a Ordem do Mérito Cultural pelo Ministério da Cultura em 2011, seguido pela Medalha da Inconfidência em 2016 e o Prêmio Bom Exemplo em 2017. Mais recentemente, recebeu o Prêmio Faz a Diferença, das Organizações Globo, reconhecimentos que muitas vezes chegam tardiamente àqueles que atuam nos bastidores da cultura.
Embora não tenha a fama do pastor da parábola de Giono, Afonso Borges possui um legado que transcende sua figura individual. A floresta que ele ajudou a criar é um testemunho do poder da literatura e da cultura em transformar realidades.
Um Legado em Construção
Ao contrário do personagem de Giono, que encerrou sua vida após recriar o ambiente em que vivia, Afonso Borges continua ativo. Aos 62 anos, ele está constantemente plantando novas ideias, como o festival que lançou em 2024. Ele menciona com carinho suas três filhas, Isabella, Mariana e Manuela, e sua esposa, Iara, revelando que sua vida pessoal e profissional se entrelaçam em um projeto de atenção ao próximo.
Quando Afonso Borges decidir desacelerar, sua floresta já estará solidamente estabelecida. Dois milhões de pessoas impactadas por seus eventos, cidades que descobriram seu potencial literário e escritores negros que encontraram espaço para se expressar nas terras do interior de Minas Gerais. Sem dúvida, ele continuará a inspirar novas gerações de leitores e autores, semeando um futuro promissor para a literatura brasileira.
