Desafios da Doença de Chagas no Norte de Minas
A doença de Chagas, descoberta em 1909 na cidade de Lassance, no Norte de Minas, continua a apresentar alarmantes índices de infecção na região. Essa enfermidade é causada pelo protozoário Trypanosoma cruzi, transmitido pelo barbeiro, um inseto hematófago que prolifera nos municípios mineiros. Com um diagnóstico precoce sendo crucial para o tratamento, a doença se manifesta em duas fases: a aguda, caracterizada por febre e inchaço, e a crônica, que compromete órgãos como o coração e o intestino.
O nome da patologia homenageia o médico sanitarista Carlos Chagas, que identificou o agente causador ao examinar o sangue de uma garota de apenas dois anos, chamada Berenice.
No dia 23 de fevereiro de 2026, a partir das 10 horas, a Comissão de Saúde da Assembleia Legislativa de Minas Gerais (ALMG) promove uma audiência pública em Espinosa, uma das cidades mais afetadas pela doença. O evento ocorrerá na Rua São Vicente de Paulo, n° 417, Bairro São Cristóvão.
Ações de Controle e Enfrentamento da Enfermidade
Esta é a segunda audiência pública promovida pela Comissão de Saúde, que visa avaliar a situação da endemia e o progresso de dois programas federais recém-implementados: o Integra Chagas Brasil e o Cuida Chagas. Espinosa foi escolhida como um dos focos de atuação devido aos altos índices de infecção, com iniciativas que incluem a disponibilização de testes rápidos para diagnóstico precoce e tratamento, priorizando mulheres em idade fértil.
A doença de Chagas afeta principalmente a população mais vulnerável e negra, o que contribui para o descaso em relação a esse problema, que já perdura por mais de um século. “Não é possível que essa doença continue a prevalecer, após 120 anos de sua descoberta”, afirmou o deputado Arlen Santiago (Avante), presidente da Comissão de Saúde, durante a primeira audiência pública em outubro de 2025. Naquela ocasião, ele já havia anunciado a necessidade de uma nova reunião para discutir os resultados das ações de controle da doença.
Resultados e Impactos da Doença na Comunidade
O deputado, responsável pelos requerimentos que resultaram tanto na primeira quanto na segunda audiência pública, também planeja solicitar ao secretário de Estado de Saúde o desenvolvimento de ações de apoio aos municípios mais impactados pela doença. Durante a primeira reunião, foram apresentados dados alarmantes: em Espinosa, com uma população de aproximadamente 30.400 habitantes, foram realizados 10 mil testes, dos quais 600 confirmaram a presença da doença. A cidade, que possui uma população rural significativa (entre 30% e 40%), enfrenta desafios como o alto índice de analfabetismo, que chega a 17%, além de uma demanda crescente por melhorias em moradia e saúde.
Em Porteirinha, também na região do Norte de Minas, quase 9 mil testes realizados resultaram em 550 casos positivos.
Debate e Presença de Especialistas
A audiência pública contará com a presença de especialistas em saúde, além de autoridades municipais, estaduais e federais. Entre os confirmados estão Alberto Novaes Ramos Júnior, coordenador do Projeto Integra Chagas Brasil; o prefeito de Espinosa, Nilson Sepúlveda; a superintendente regional de Saúde de Montes Claros, Dhyeime Marques; e Francisco Lima, superintendente da Fundação Nacional de Saúde.
Os projetos discutidos na audiência se concentram no atendimento às mulheres em idade fértil, dado que a transmissão ocorre não apenas pela picada do barbeiro, mas também de mãe para filho, através de alimentos contaminados e por transfusões de sangue. “Não estamos lidando com um aumento de casos, mas sim trazendo à tona a visibilidade de pessoas que sempre conviveram com a doença”, explicou Andrea Silvestre de Sousa, uma das pesquisadoras que participam do evento.
