Banco Central e o Pedido de Congelamento
O Banco Central do Brasil solicitou ao Ministério Público Federal (MPF) o congelamento de R$ 11,5 bilhões em fundos de investimentos geridos pela Reag Trust Distribuidora de Títulos e Valores Mobiliários S.A. A medida é motivada por suspeitas de que esses recursos tenham sido utilizados em operações fraudulentas ligadas ao banco Master, sob a direção do ex-banqueiro Daniel Vorcaro.
Conforme revelado pela Folha de S.Paulo, a decisão do Banco Central de acionar o MPF surgiu após a detecção de indícios de fraudes nos negócios do Master, envolvendo os fundos administrados pela Reag. Essa é a segunda denúncia feita pelo regulador; a primeira envolveu a revenda de R$ 12,2 bilhões em carteiras de créditos inexistentes ao BRB (Banco de Brasília), segundo informações dos investigadores que acompanham o caso.
Contexto das Denúncias e Ações do Banco Central
A denúncia em questão refere-se a atos que teriam ocorrido entre julho de 2023 e julho de 2024, período anterior ao esquema de vendas de carteiras que resultou na prisão de Vorcaro em novembro do ano passado. O ex-banqueiro foi liberado dias após sua detenção.
A investigação revelou um esquema em que o Master concedia empréstimos a empresas, que não tinham ligação direta com o banco, mas estavam envolvidas nas fraudes. Essas empresas, ao invés de utilizarem os recursos para os fins pretendidos, aplicavam o dinheiro em fundos da Reag, criando uma teia complexa de transações.
Como Funciona o Esquema de Fraude?
O processo de desvio de recursos funcionava em várias etapas: inicialmente, o Master emprestava dinheiro a uma empresa, que utilizava uma fachada. A empresa, então, aplicava os recursos recebidos em fundos da Reag, enquanto os sistemas do Banco Central mostravam que os empréstimos estavam dentro dos limites regulatórios de Basileia, que estabelecem requisitos mínimos de capital para instituições financeiras.
O gestor do fundo da Reag, ao receber o dinheiro, comprava ativos de baixo valor a preços inflacionados, registrando-os como se fossem investimentos legítimos. A empresa tomadora do empréstimo, por sua vez, aparecia como se estivesse investindo, equilibrando ativos e passivos em seus registros.
Conforme detalhado por um investigador à Folha, essa dinâmica permitiu ao Master transferir dinheiro de dentro para fora do banco, escapando das rígidas regras bancárias que delimitam o uso de recursos financeiros, um cenário que impacta a avaliação de limites prudenciais exigidos pela legislação.
Consequências e Crise de Confiança
A crise no Master ganhou destaque especialmente no último trimestre de 2024, quando o banco enfrentou dificuldades na captação de novos recursos através de CDBs (Certificados de Depósitos Bancários), comprometendo sua liquidez e capacidade de honrar dívidas. A partir de então, a instituição começou a gerar novos ativos com carteiras de crédito consignado, os quais foram vendidos ao BRB.
No relatório encaminhado ao TCU (Tribunal de Contas da União) recentemente, o Banco Central reiterou a denúncia de gestão inadequada de capital e risco, operações sem garantias efetivas, e a falta de diversificação, todos fatores que contribuíram para a crise enfrentada, justificando a abertura de processos administrativos sancionadores que estão em fase de instrução.
Reações da Reag e Fundos Envolvidos
A Reag Trust, que é um dos alvos da operação Carbono Oculto — deflagrada em agosto para investigar ligações entre o setor de combustíveis, o PCC e instituições financeiras — negou, em nota, qualquer vínculo com o crime organizado e afirmou não ter recebido acesso ao relatório do Banco Central, o que impossibilita a empresa de responder a questionamentos sobre a relação com o Master.
Entre os fundos mencionados na denúncia ao MPF estão o Bravo 95 Fundo de Investimento Multimercado Crédito Privado e o D Mais Fundo de Investimento em Direitos Creditórios, ambos sob a administração da Reag. O Banco Central comunicou ao TCU a data em que notificou o MPF, ocorrida um dia antes do anúncio da liquidação do Master, em 18 de novembro.
Segundo o documento enviado ao TCU, em 17 de novembro de 2025, o Banco Central fez nova comunicação ao MPF, ressaltando indícios de crimes relacionados ao desvio de recursos e gestão fraudulenta. As operações estruturadas em questão, que totalizam R$ 11,5 bilhões, evidenciaram um gerenciamento inadequado de capital e risco, culminando em negócios sem garantia, liquidez e diversificação, agravando a situação do banco.
