Impacto Econômico do Rombo no BRB
O desfalque gerado pelo Banco Master no Banco de Brasília (BRB) pode ser consideravelmente superior aos R$ 2,6 bilhões que já foram identificados pelo Banco Central. Para ressarcir o banco estatal, o executivo Daniel Vorcaro recorreu a ativos questionáveis, incluindo fundos com créditos inadimplentes, ações desvalorizadas e imóveis, que são considerados de liquidez reduzida.
Em um levantamento realizado em novembro, o Banco Central revelou que R$ 12 bilhões em carteiras de crédito transferidas do Master para o BRB apresentavam indícios de fraude, levando à determinação do ressarcimento desse valor. O BRB, por sua vez, informou ter conseguido recuperar cerca de R$ 10 bilhões desse montante.
A investigação inicial conduzida pelo BRB sobre as perdas relacionadas ao Banco Master revelou que, dentro dessa quantia, estavam envolvidos oito fundos associados a Vorcaro. A Folha de S.Paulo destacou que esses fundos foram repassados ao BRB e agora fazem parte do conglomerado do banco.
A análise da reportagem identificou que os fundos investiram em empreendimentos imobiliários da família Vorcaro, acumularam mais de R$ 800 milhões em créditos inadimplentes e contêm papéis da Ambipar, uma empresa do setor de resíduos sólidos que atravessa um processo de recuperação judicial.
Em resposta, o BRB comunicou que qualquer avaliação sobre a necessidade de aporte de capital levará em consideração todos os impactos associados aos fundos e ativos que foram transferidos pelo Banco Master.
“Essa avaliação faz parte da apuração do Banco Central e inclui uma investigação independente realizada pelo escritório Machado e Meyer, que está sendo assessorado pela Kroll”, declarou o banco.
Conforme revelado pela Folha, o Banco Central já exigiu que o BRB reserve R$ 2,6 bilhões para cobrir eventuais perdas decorrentes das fraudes associadas às transações com o Banco Master.
Fundos Envolvidos e suas Implicações
O fundo com maior volume entre os repassados ao BRB é o Jeitto, que se concentra em créditos. Sua carteira supera R$ 1 bilhão, sendo que R$ 952 milhões estavam inadimplentes até dezembro de 2025, o que resultou em um provisionamento de R$ 873 milhões, uma reserva destinada a cobrir potenciais perdas.
A origem desses créditos está nas concessões de empréstimos realizadas pelo Banco Master, e existia um acordo entre a instituição de Vorcaro e o fundo para que as dívidas com inadimplência superior a 90 dias fossem quitadas pelo fundo. Entretanto, essa prática foi interrompida ainda no primeiro semestre de 2025.
Em resposta à inadimplência, o Banco Master notificou os fundos em outubro do ano passado, reiterando formalmente a necessidade de recompra dos créditos em atraso. Contudo, a notificação não resultou em uma regularização da situação, levando o fundo a suspender a compra de novos direitos creditórios até que o impasse seja resolvido.
O segundo maior fundo, Kyra, tem uma carteira avaliada em R$ 882 milhões, sendo toda composta por ações da Ambipar, atualmente em recuperação judicial.
Atualmente, as ações da Ambipar estão valendo R$ 0,26, uma queda significativa em relação ao preço de R$ 10,75, alcançado antes do pedido de recuperação judicial, que levou os papéis a uma desvalorização acentuada.
Outro fundo que enfrentou uma desvalorização foi o Texas I, que em setembro de 2025 apresentava uma carteira de R$ 634 milhões, na qual R$ 530 milhões eram em ações da Ambipar. Em dezembro do mesmo ano, o patrimônio líquido do fundo caiu para R$ 122 milhões, refletindo a queda dos papéis da empresa.
Investimentos Imobiliários e Relações Familiares
O terceiro fundo de maior valor é o Supreme Realty, com um total de R$ 737 milhões. Dessa quantia, R$ 264 milhões estão vinculados a um projeto imobiliário liderado por Nathalia Vorcaro, irmã de Daniel Vorcaro. Os recursos estão distribuídos entre duas empresas: a MG I Desenvolvimento Imobiliário e a Brazil Realty Empreendimentos.
A MG I controla uma outra empresa, a Minas Gerais II Desenvolvimento Imobiliário, que possui 69,5% de um terreno de 76 mil m² em Contagem, MG. A Brazil Realty é responsável pelos 30,5% restantes do mesmo terreno.
Além disso, o fundo investe em um residencial do programa Minha Casa, Minha Vida, denominado Mountain View, que é avaliado em R$ 388 milhões e é gerido pela Focus Participação, com a participação de Nathalia como diretora.
Outro fundo imobiliário repassado ao BRB é o CMX Realty, que também possui empreendimentos ligados à família Vorcaro. Dos R$ 118 milhões desse fundo, R$ 108 milhões são destinados a um projeto conhecido como Pedra Histórica, localizado em Brumadinho (MG).
Esse projeto é operado por duas empresas, a CMX Realty e a Pedra Histórica Holding e Participações, cujos diretores estão envolvidos em outros empreendimentos associados ao pai de Vorcaro, Henrique Vorcaro, e ao cunhado, Fabiano Zettel.
Em resposta a essas informações, o Banco Master afirmou que não ocorreu transferência de ativos ocultos ou não registrados, assegurando que as operações seguiram os critérios contábeis e regulatórios aplicáveis na época.
O BRB completou que a avaliação do aporte necessário para cobrir perdas será feita após a finalização das investigações em andamento. “Todos os ativos transferidos para o BRB estavam devidamente registrados no balanço do Banco Master e faziam parte das demonstrações financeiras da instituição”, assegurou a nota do banco.
Além disso, o BRB destacou que esses ativos eram auditados periodicamente e avaliados conforme as metodologias de classificação de risco e avaliação em vigor, seguindo as diretrizes estabelecidas pelas autoridades supervisórias.
