Um Ícone da Culinária Local
Durante as férias, Belo Horizonte se enche de visitantes, trazendo à tona uma questão que frequentemente permeia as mesas da cidade: o que oferecer como representação da gastronomia local? Em momentos como esse, o cotidiano deixa de ser apenas rotina e se transforma em uma vitrine cultural. A comida, que muitas vezes é consumida sem pensar, passa a ser cuidadosamente escolhida e avaliada, especialmente por aqueles que visitam a capital mineira.
Minas Gerais, reconhecida mundialmente como um dos melhores destinos para se apreciar boa comida, faz com que essa pulsão coletiva por pratos com identidade se intensifique. Existe uma busca por sabores que têm raízes bem definidas, que emitem a sensação de pertencimento a um lugar. Essa sensação é provocada pela ideia de que algumas receitas são imunes ao passar do tempo e às mudanças culturais. Porém, essa visão é ilusória.
A Evolução da Gastronomia
Na verdade, a gastronomia é um campo dinâmico, onde receitas se adaptam, ingredientes se alteram, e as técnicas culinárias evoluem constantemente. É interessante notar que, ao receber alguém de fora em Belo Horizonte, a escolha de pratos não costuma incluir opções como a culinária italiana, que é facilmente encontrada em qualquer grande centro urbano do Brasil. O que se espera é que as visitas tenham acesso a pratos que sejam uma verdadeira expressão da cultura local.
Um exemplo claro dessa identidade é o bife à parmegiana, um prato que aparece com frequência nos cardápios dos restaurantes da cidade. Apesar de sua associação imediata com a Itália, que evoca a cidade de Parma e o famoso queijo parmesão, há uma desconexão surpreendente entre a versão brasileira e suas origens. De fato, ao se atravessar o Oceano Atlântico, encontramos que o bife à parmegiana não tem um equivalente em território italiano.
Um Prato Único
Na verdade, o que se serve em Parma é a melanzane alla parmigiana, um prato preparado com berinjela empanada, molho de tomate e camadas de queijo, bem distante do que estamos acostumados a ver aqui no Brasil. O prato italiano é muito mais similar a uma lasanha de berinjela do que a nosso generoso bife à parmegiana, que é sempre acompanhado de arroz e batatas fritas, por exemplo.
Então, como esse prato tipicamente brasileiro se originou? A explicação está no entrelaçar de culturas que ocorreu aqui, resultante da influência de imigrantes italianos e de práticas alimentares já estabelecidas no Brasil. O nome parmegiana carrega uma herança europeia, enquanto que o molho de tomate e o queijo trazem um ar de continuidade cultural. No entanto, o que realmente redefine o prato é a carne bovina, que é abundante em um país com uma forte tradição pecuária.
A Identidade Mineira à Mesa
Em Belo Horizonte, o bife à parmegiana adquire características ainda mais singulares. Servido de forma generosa, ele se torna parte do cotidiano, transitando com facilidade entre diferentes classes sociais e estabelecimentos. Esse prato, que tem um nome estrangeiro, reflete a riqueza da cultura alimentar brasileira e, mais especificamente, a de Minas Gerais.
Mais do que uma mera herança cultural, o bife à parmegiana se afirma como uma prática comum, resultado de um diálogo entre referências estrangeiras e as peculiaridades locais. Quando se aprecia esse prato, é possível perceber como ele traduz nossos valores e nossas expectativas em relação à comida. Assim, a parmegiana representa uma tradição que se renova constantemente, sendo construída a cada refeição.
Por isso, não é surpreendente que eu frequentemente leve meus visitantes para experimentar o bife à parmegiana em Belo Horizonte. Essa escolha reflete não apenas uma preferência pessoal, mas também um convite a conhecer a identidade gastronômica da cidade. E, acredite, tenho meus lugares preferidos para saborear essa iguaria.
