Jornada de Lutas em Belo Horizonte
Sete anos após o trágico rompimento da barragem da Vale em Brumadinho, a realidade dos atingidos ainda é marcada pela falta de reparação. Para lembrar a data e expor as contínuas violações nos territórios, o Movimento dos Atingidos por Barragens (MAB) organizou, entre os dias 23 e 25 de janeiro, uma série de atividades em Belo Horizonte e Brumadinho. As ações reafirmaram que o crime permanece presente no cotidiano das comunidades impactadas.
No dia 23 de janeiro, aproximadamente 700 pessoas afetadas, provenientes das cinco regiões da Bacia do Rio Paraopeba, além de representantes da Bacia do Rio Doce e de Itatiaiuçu, ocuparam o saguão da Assembleia Legislativa de Minas Gerais (ALMG), em Belo Horizonte. O evento foi marcado por denúncias contundentes, balanços sobre a situação da reparação e cobranças diretas dirigidas às Instituições de Justiça, ao Governo de Minas Gerais e à própria empresa Vale. Logo no início, os afetados relataram que, mesmo após sete anos, continuam a enfrentar contaminação, adoecimento, insegurança e a ausência de reparação adequada.
Durante o balanço sobre a reparação na Bacia do Paraopeba, as falas dos atingidos evidenciaram o sofrimento contínuo. Rosângela Maria de Souza, residente da Região 4 (Baixo Paraopeba), expressou sua angústia, afirmando que a lama trouxe dor e depressão, mas não a reparação necessária: “Nós não pedimos para ser atingidos. Estamos pedindo socorro”, destacou Rosângela.
Mãe Kimazandê, do Centro de Umbanda Mãe Congá de Aruanda, em São Joaquim de Bicas, denunciou a devastação dos modos de vida dos povos de matriz africana e a perda do rio como espaço sagrado. “Hoje nós não temos mais o nosso rio, nossos peixes, nossas ervas sagradas. O rio realmente chora”, lamentou Mãe Kimazandê.
Guilherme Camponez, integrante da coordenação nacional do MAB, criticou a situação do Rio Paraopeba, que permanece contaminado por rejeitos e destacou que uma parte significativa das pessoas afetadas ainda não recebeu indenização individual. Ele também condenou o acordo estabelecido em 2021 sem a participação dos atingidos e a retirada da Assessoria Técnica Independente (ATI) Aedas das regiões 1 e 2, o que, segundo ele, representa uma violação das políticas de direitos das populações afetadas por barragens.
Um dos momentos mais emocionantes da Jornada aconteceu com a Abertura da Cápsula do Tempo das Crianças, realizada pela Ciranda do MAB. As crianças afetadas leram desejos e palavras escritas no ano anterior, expressando anseios de amizade, união e justiça. Uma delas tocou o coração do público ao dizer: “Eu quero que as almas das pessoas que morreram na barragem descansem em paz”. Na carta final, as crianças reafirmaram que, apesar das perdas, continuam brincando e lutando por uma reparação justa: “O rio ainda corre, o povo ainda luta e a criança ainda brinca”.
Coletiva de Imprensa e Ações Legais
Em paralelo às atividades, uma coletiva de imprensa reuniu lideranças e atingidos, que denunciavam a ineficácia das Instituições de Justiça no processo de reparação. Joceli Andrioli, também da coordenação nacional do MAB, comentou que promotores e defensores públicos têm violado direitos fundamentais, como a escolha da ATI. “São mais de 64 comunidades com seus direitos violados”, afirmou. A coletiva também destacou os atrasos nos projetos coletivos previstos nos acordos e a falta de garantias para a continuidade do auxílio emergencial.
Ao longo da tarde, os atingidos protocolaram denúncias formais no Ministério Público e na Defensoria Pública contra os responsáveis pelo caso Brumadinho. No final do dia, representantes das comunidades, familiares de vítimas e integrantes do MAB se reuniram no Tribunal de Justiça de Minas Gerais (TJMG) com o juiz Murilo Sílvio de Abreu. O magistrado prometeu manter um diálogo contínuo com os afetados, garantir maior transparência na implementação do auxílio emergencial e elaborar um cronograma anual para resolver as pendências do processo judicial.
Romaria em Brumadinho
No dia 25 de janeiro, marcando oficialmente sete anos do rompimento da barragem, o MAB participou da 7ª Romaria pela Ecologia Integral em Brumadinho – uma homenagem por Memória, Justiça e Esperança. A programação incluiu uma missa em memória das 272 vítimas fatais, seguida de uma caminhada até a Praça Saudade das Joias, onde ocorreu um ato de homenagem organizado pela Associação dos Familiares de Vítimas e Atingidos pelo Rompimento da Barragem Mina Córrego do Feijão em Brumadinho (AVABRUM).
Durante a Romaria, os presentes compartilharam sentimentos de dor, saudade e resistência. Mãe Kimazandê reafirmou que, após sete anos, a luta ainda carece de respostas e justiça. “Os que partiram foram silenciados, mas nós seguimos reunidos para que essas vítimas não tenham partido em vão”, declarou. Dona Jandira Silva, residente na comunidade Dom Bosco, em Brumadinho, ressaltou a importância da memória coletiva. “A importância da gente se reunir todo 25 de janeiro é para nunca esquecer nossas 272 joias, que estarão sempre em nossos corações. Ainda não conseguimos justiça, não há nada concreto e concluído”, completou Jandira.
Sete anos após o rompimento, Brumadinho e toda a Bacia do Rio Paraopeba permanecem marcados pelo crime cometido pela Vale e pelas severas violações de direitos que persistem. Entretanto, a resistência popular, a memória das vítimas e a luta contínua dos atingidos se mantêm vivas. Enquanto existirem famílias sem reparação integral, sem água potável e sem justiça, os afetados continuarão a afirmar que não foi um acidente, foi um crime, e a busca por reparação integral permanece latente.
