Câmara Municipal de Belo Horizonte em Ano Eleitoral
A retomada das atividades na Câmara Municipal de Belo Horizonte, após o período de recesso, não trouxe a sensação habitual de um novo começo. Em vez disso, o que se percebe é um clima de contagem regressiva, especialmente com o contexto eleitoral se aproximando. Mais de 20 vereadores estão se preparando para disputar novos cargos, o que preocupa os bastidores da política local. Há uma crescente apreensão de que projetos importantes para a cidade possam ser sufocados por discursos acalorados, gravações para redes sociais e disputas que pouco têm a ver com a rotina da população.
A polarização partidária, que já se tornava evidente, agora se intensifica como uma estratégia deliberada. A Câmara, que se mostra cada vez mais fragmentada, tem registrado um aumento no número de moções e propostas que abordam temas nacionais, decisões do Supremo Tribunal Federal e embates ideológicos trazidos de Brasília. Uma simples contestação pode levar a que matérias, antes aprovadas sem resistência, passem a ser votadas. O que antes se resolvia nos protocolos agora ganha palco público, com direito a discursos e recortes para as redes sociais.
Debates Acirrados e Estratégias Eleitorais
O mesmo cenário se repete com projetos que são considerados inconstitucionais. Embora a Comissão de Legislação e Justiça continue a atuar como um filtro técnico, muitos pareceres contrários têm sido frequentemente contestados. Com o número necessário de assinaturas, essas propostas avançam para o plenário, onde o debate muda de uma esfera técnica para uma arena política. Nos corredores da Câmara, a percepção é de que questionar, levar ao voto e expor as opiniões se tornaram táticas eleitorais.
Em meio a esse quadro tenso, não há sinais de que a presidência da Câmara, liderada por Juliano Lopes (Podemos), vá conter os ânimos. Lopes argumenta que o regimento da Casa assegura amplo espaço para a fala e, se a regra permite, não há motivo para limitar o debate. O uso da tribuna como um palco — inclusive para gravações — é visto como uma consequência do exercício democrático.
Nos bastidores, pesa o fato de que Juliano é pré-candidato à Assembleia Legislativa, o que ele atribui ao aumento significativo de votos obtidos entre 2020 e 2024, bem como à sua experiência no quarto mandato e à visibilidade que o cargo proporciona. A narrativa interna defende que os trabalhos da Casa não podem desacelerar. Reuniões do colégio de líderes estão sendo convocadas, e há rodízio na presidência durante as férias. O recado é claro: quem se coloca como candidato deve dar conta do serviço. Oficialmente, a Câmara não fará pausas.
Estratégias do Executivo e Projetos Prioritários
No lado do Executivo, a abordagem é de selecionar quais projetos devem avançar agora e quais podem ser adiados. Bruno Miranda (PDT), líder da base, defende a importância de focar em projetos estruturantes que podem ser prejudicados com as eleições se aproximando. O projeto mais destacado é o que busca autorização para contrair um financiamento de até R$ 500 milhões junto ao BNDES, destinado ao programa BH Resiliente, que abrange ações de adaptação climática, infraestrutura sustentável e requalificação de áreas vulneráveis. A expectativa é que a votação do empréstimo ocorra já no início do ano.
A minirreforma administrativa, que foi enviada ao final de 2024, ainda está nas comissões e está sendo tratada com bastante cautela, dada a sua relevância em um ano eleitoral. Por outro lado, a Operação Urbana Simplificada do Hipercentro foi adiada para março, com uma audiência pública agendada para o dia 9, devido ao potencial desgaste em tópicos como uso do solo e impacto social.
Projetos e Desafios da Câmara
Atualmente, as comissões — especialmente a de Legislação e Justiça — têm uma longa fila de projetos protocolados para 2025, abordando temas como proteção a mulheres, idosos, pessoas com deficiência, saúde, educação, cultura, esportes e geração de renda. Na prática, as decisões eleitorais começam a moldar aquilo que será debatido e aprovado.
Entre as prioridades que geram menos controvérsias, os vereadores destacam o PL 179/25, que regulamenta a reprodução e comercialização de animais, e o PL 169/25, que institui o selo “Estabelecimento Amigo do Autista”. Por outro lado, a ala bolsonarista, representada por Pablo Almeida (PL), foca em projetos como o PL 431/2025, que estabelece controle sobre ruídos, e o PL 155/2025, que prevê sanções para o uso de drogas em espaços públicos.
A análise é de que 2026 não será um ano de consensos, mas sim um período de escolhas difíceis. Projetos que possuem impacto direto, custo político baixo e uma narrativa clara tendem a avançar, enquanto aqueles que são mais complexos enfrentarão a concorrência de discursos, moções e agendas pessoais. É esperado que o plenário continue movimentado, com o microfone sendo amplamente utilizado e os tempos de debate cada vez mais escassos. Em um ano eleitoral, o desafio não é apenas votar, mas decidir o que realmente merece ser votado.
