Atrasos no Repasse de Recursos Para o Carnaval de Belo Horizonte
Em Belo Horizonte, o Carnaval, que é um dos eventos mais aguardados do ano, revela um problema recorrente na gestão municipal: a lentidão no repasse de recursos financeiros aos grupos que organizam a festa. Segundo representantes de ligas de blocos de rua e coletivos carnavalescos, as verbas chegam somente nas vésperas da festa, o que dificulta a organização e a contratação de serviços essenciais para a realização do evento.
Eulália Amada, presidente da Liga de Blocos de Santa Tereza e da Regional Leste (SiLiga), assim como coordenadora do bloco Volta Belchior, expressa sua insatisfação com a situação. “O dinheiro até chega, mas só na hora do amém”, comentou, com um tom de ironia, enquanto destacava que essa situação se repete ano após ano, comprometendo a preparação adequada para a folia. A poucos dias do Carnaval, a Prefeitura de Belo Horizonte (PBH) divulgou a lista dos blocos que receberão o auxílio financeiro.
Impacto nos Blocos Caricatos
Os blocos caricatos, que competem na avenida Afonso Pena, sentem ainda mais as consequências dessa demora. Juólison Mangabeira, presidente da Liga Independente de Blocos Caricatos e Carnavalescos de Minas Gerais, observa que a dificuldade da PBH em captar patrocínios privados está relacionada aos atrasos nos repasses. “Sempre que a Prefeitura de BH não consegue um patrocinador, enfrentamos esse atraso no repasse”, explica.
Por outro lado, a gestão municipal refuta essa afirmação. A Belotur, empresa responsável por planejar e coordenar o Carnaval, garante que a realização do evento não depende da captação de patrocínios privados. A Prefeitura afirmou que os recursos são assegurados por dotação orçamentária específica e que o Carnaval é uma política pública consolidada na cidade.
A Preparação para a Folia
Em dezembro passado, a PBH declarou que três editais para captação de recursos estavam “desertos”, ou seja, sem interesse de empresas. Essa situação preocupa representantes dos blocos, que precisam de meses de preparação, incluindo ensaios, confecção de fantasias e organização de temas. “É um trabalho que exige tempo e dedicação”, destacou Juólison.
Questionada sobre prazos para pagamento aos 105 blocos contemplados pelo Edital de Auxílio Financeiro do Carnaval, a Prefeitura garantiu que os repasses serão feitos até 31 de janeiro de 2024, totalizando R$ 3,21 milhões, um aumento de 82% em relação ao ano anterior. Leandro César, diretor do bloco Então, Brilha! e membro da Liga dos Blocos de Rua e de Lutas de Belo Horizonte (Liga Bruta), criticou a visão limitada da prefeitura sobre a festa. “O Carnaval não é apenas um evento pontual, ele é uma rede de pessoas comprometidas com a realização da festa”, afirmou.
Busca por Patrocínios Privados
No intuito de solucionar os problemas financeiros, muitos blocos estão mirando na iniciativa privada para garantir recursos. Juólison defende que as agremiações não devem ficar dependentes somente do poder público. “Nós fazemos esforço para manter as coisas funcionando o ano todo”, comentou.
Leandro concorda, mas ressalta que essa busca pode prejudicar alguns blocos, já que cada um busca seus próprios patrocínios. “Não temos uma articulação conjunta para captar recursos. Cada um está na sua luta”, explicou.
Desafios na Relação com a Belotur
O atraso no repasse financeiro coincide com a recente troca de liderança na Belotur. Em dezembro, Bárbara Menucci deixou a presidência e Eduardo Cruvinel assumiu o cargo. Eulália mencionou que, embora haja diálogo com a Belotur, isso não tem sido suficiente para evitar problemas estruturais relacionados ao Carnaval. Por outro lado, Juólison afirmou que há um bom relacionamento com a empresa, caracterizado como “excepcional”.
Leandro, da Liga Bruta, por sua vez, destacou que ainda não teve contato direto com a nova presidência, e embora a mudança não tenha refletido na relação institucional até o momento, a falta de comunicação é uma preocupação.
Expectativas Para o Carnaval de 2024
Apesar dos desafios, a expectativa para o Carnaval deste ano continua alta. Eulália espera que a festa ocorra com segurança e respeito, e que os recursos sejam liberados a tempo para evitar endividamento entre os coletivos. “Que seja melhor do que já foi nesses anos todos”, almeja.
Leandro César reforça o desejo de manter o espírito que revitalizou o Carnaval em Belo Horizonte nos últimos anos. Os blocos seguem com a “expectativa de sempre”, que é “dar o melhor” e garantir uma festa repleta de alegria, mas também impregnada das questões políticas necessárias sobre o uso do espaço público. “Essa discussão é fundamental”, conclui.
