Movimentos Culturais em Alerta
Na última sexta-feira, coletivos e ligas do Carnaval de Belo Horizonte (BH) emitiram uma nota pública expressando repúdio à política cultural que, segundo eles, prioriza megashows e atrações nacionais em detrimento dos blocos e artistas locais. O documento revela a preocupação com a valorização excessiva de grandes eventos, que, conforme os grupos, favorecem produtores de fora do estado e desconsideram o potencial cultural da própria cidade.
A crítica surge em um momento em que a prefeitura anunciou uma série de grandes apresentações para o Carnaval de 2026, enquanto os blocos de rua, que são a alma da festa, continuam a enfrentar dificuldades, recebendo apoio escasso e sem políticas que garantam seu fortalecimento. “Os cortejos de rua, que representam a diversidade cultural espalhada pelas regionais, estão sendo negligenciados”, aponta a nota, ressaltando que a atenção está voltada apenas para artistas de destaque nacional como Luísa Sonza e Zé Felipe na programação oficial.
O Carnaval de BH, que já conta com mais de 600 desfiles de blocos de rua, é reconhecido como o terceiro maior destino turístico do Brasil, em grande parte graças à colaboração dos artistas, ambulantes e foliões locais. “A festa se tornou um fenômeno nacional por conta do trabalho da comunidade, e não apenas pelos grandes shows”, afirmam os coletivos.
Gestão Pública e Cultura Local
Em entrevista à Rede 98, um representante da Liga dos Blocos de Rua e de Luta de Belo Horizonte, que optou pela anonimato, criticou a estratégia da gestão pública de trazer grandes artistas, alegando que isso se configura como uma apropriação indevida do que deveria ser um esforço coletivo. “O Carnaval deve ser uma festa popular e democrática, mas estamos vendo um movimento que centraliza recursos em um modelo que não prioriza os artistas locais”, afirma o representante.
A nota dos coletivos também enfatiza que essa priorização tem causado um esvaziamento das comunidades e precarizado o trabalho dos profissionais da cultura. “Essas escolhas não apenas desvirtuam a essência do Carnaval, mas podem comprometer a sustentabilidade econômica e cultural dos verdadeiros construtores da festa”, alertam.
O representante da Liga Bruta complementou a mensagem, enfatizando que a sobrevivência do Carnaval de BH a longo prazo depende do fortalecimento dos blocos locais. “Para garantir que a festa continue viva por décadas, precisamos de investimento significativo na autonomia e na criatividade dos coletivos”, defendeu.
Demandas por Mudanças
Os movimentos culturais exigem mudanças radicais na gestão do Carnaval em BH. Eles reivindicam uma reavaliação das prioridades, com foco no apoio e no fortalecimento dos artistas e blocos locais. “Repudiamos a priorização de megaeventos que são financiados com dinheiro público e demandamos um modelo que realmente valorize e invista nos coletivos de rua”, destaca o documento.
Além disso, os grupos pedem maior transparência nos critérios de distribuição dos recursos e mais participação social nas decisões que envolvem a festa. Essas demandas refletem um desejo de uma gestão mais inclusiva e que realmente atenda às necessidades dos artistas locais.
Resposta da Belotur
Em resposta às críticas, a Belotur, empresa pública responsável pelo planejamento do Carnaval de BH, negou que haja qualquer tipo de priorização ou investimento direcionado a megaeventos ou atrações de fora. A empresa esclareceu que as contratações de artistas que não são locais são feitas pelos organizadores dos blocos, utilizando recursos próprios ou de parcerias privadas.
“Não cabe ao poder público municipal interferir nas escolhas artísticas dos organizadores, desde que sigam as normas e legislações pertinentes ao Carnaval”, afirmou a Belotur, destacando a autonomia dos blocos para decidir sua programação.
