Entidades Carnavalescas Atraem Atenção para Questões Estruturais
O Carnaval de Belo Horizonte, que se consolidou como o terceiro destino turístico do Brasil, enfrenta críticas de ligas e associações locais. Em uma nota pública chamada “Pelo Carnaval de BH feito por quem faz”, as entidades manifestam seu descontentamento com a gestão atual do evento, que favorece produtores e atrações de grande porte em detrimento dos blocos de rua e artistas da cidade.
A Liga Belorizontina, a Santa Tereza Independente Liga (Si Liga), a Liga dos Blocos de Rua e de Luta de Belo Horizonte (Liga Bruta BH), a Associação dos Blocos de Rua de BH (ABRA) e a Associação dos Blocos Afro de Minas Gerais (Abafro) estão entre as signatárias do documento. Segundo a nota, enquanto os tradicionais cortejos de rua, que se espalham por diversas regiões da cidade, recebem apoio limitado e carecem de políticas públicas permanentes, a programação oficial do Carnaval tem direcionado ênfase a artistas de renome nacional, muitos dos quais não têm vínculos com a cena local.
A crítica é clara: essa abordagem não apenas fragiliza a cultura local, mas também desfigura uma celebração que, historicamente, foi construída de forma comunitária e popular. “O Carnaval de Belo Horizonte se tornou um dos maiores eventos do país porque é fruto do trabalho de seus artistas, técnicos e foliões. Apesar das dificuldades enfrentadas, essa festa ampliou a visibilidade cultural de Minas Gerais, proporcionando renda para toda a cadeia produtiva”, enfatiza a nota.
Entretanto, as entidades destacam que blocos e coletivos lidam com a falta de apoio público e com obstáculos para a captação de patrocínios privados. Ao mesmo tempo, empresas lucram com a afluência de visitantes durante o Carnaval, sem contribuir de maneira justa para os criadores locais. Um exemplo grave mencionado no documento é o show do DJ Alok, realizado no Carnaval de 2025. O evento, amplamente promovido pela gestão municipal, foi marcado por episódios de violência e superlotação, levantando questionamentos sérios sobre o modelo de megaeventos com financiamento público.
Os dados da Belotur, órgão responsável pela promoção do turismo na cidade, revelam que, mesmo com a fama do Carnaval belo-horizontino, a maior parte dos participantes é composta por moradores locais da capital e da região metropolitana. A previsão para 2026 é que apenas 20% dos foliões sejam turistas de fora. Para integrantes da Liga Bruta, essa realidade é um reflexo da identidade do Carnaval de BH, que preza pela ocupação do espaço público e pela defesa da cultura como um direito.
Ainda que reconheçam algumas melhorias no diálogo com a Prefeitura de Belo Horizonte (PBH) nos últimos meses, os organizadores do Carnaval consideram que a abertura ainda é insuficiente. Eles ressaltam a falta de uma relação mais horizontal na construção do evento e criticam a alocação de recursos públicos, que ainda deixa de fora a maior parte dos mais de 600 blocos cadastrados, uma situação que se torna insustentável para muitos.
Em sua nota, as entidades pedem por mais transparência nos critérios de financiamento e uma participação efetiva das comunidades nas decisões relacionadas à festa. A exigência é clara: um modelo de Carnaval que priorize e invista nos blocos de rua, escolas de samba e demais iniciativas locais, que são responsáveis pela verdadeira essência da celebração nas ruas, de maneira descentralizada e acessível a todos.
