Instituições de Cultura Cobram Valorização dos Blocos Locais
Recentemente, ligas, associações e coletivos carnavalescos de Belo Horizonte emitiram uma nota de repúdio em relação à priorização de grandes eventos artísticos de fora do estado. Segundo eles, essa decisão compromete o fortalecimento da cultura local e desvaloriza os blocos de rua e coletivos que são a essência do carnaval da cidade.
No comunicado, as entidades expressaram sua frustração com a inclusão de atrações de grande porte na programação oficial do Carnaval de BH, como Luísa Sonza, Marina Sena, Xamã, Michel Teló e Clayton e Romário. Para os representantes locais, enquanto os cortejos de rua se encontram com apoio escasso, a cidade se vê inundada por artistas que, na maioria das vezes, não têm ligação com a cena carnavalesca local.
“Enquanto os cortejos de rua, diversificados e espalhados por todas as regionais, seguem com apoio escasso e sem políticas permanentes de fomento, assistimos ao anúncio de artistas de projeção nacional na programação oficial, a maioria sem qualquer ligação orgânica com a cena carnavalesca local”, diz a nota. Foliões no bloco Abalô-caxi — Foto: Guilherme Pimenta/TV Globo.
Apoio Público e Patrocínios: Um Cenário Preocupante
As entidades enfatizaram que o carnaval de Belo Horizonte se consolidou como o terceiro maior destino turístico do país, resultado do empenho de artistas, artesãos, produtores, técnicos e foliões. No entanto, a crítica se volta para o atual modelo de gestão pública, que favorece grandes shows em detrimento dos blocos de rua.
De acordo com a nota, “o atual modelo de gestão pública do Carnaval tem priorizado a lógica dos grandes shows, esvaziando os territórios, precarizando trabalhadores da cultura e desvirtuando o espírito comunitário da folia”. Além disso, os blocos e artistas locais enfrentam dificuldades com o apoio público e a falta de patrocínios privados. “Mesmo com empresas lucrando enormemente com a cidade lotada de foliões, a situação dos blocos se torna cada vez mais crítica”, afirmam.
Os coletivos também recordaram os episódios de violência registrados durante o show do DJ Alok no carnaval de 2025, citando-os como exemplos dos riscos que envolvem a realização de megashows superconcentrados financiados com recursos públicos. Esse aspecto, segundo eles, demonstra a necessidade de um olhar mais atento sobre as prioridades do carnaval na capital.
Pedido de Transparência e Valorização da Cultura Local
Os representantes dos blocos e coletivos exigiram mais transparência nos critérios de aplicação dos recursos destinados ao carnaval e pediram a inclusão da sociedade nas decisões. Além disso, solicitaram um modelo de festa que valorize e invista nos blocos de rua, escolas de samba e blocos caricatos, que são fundamentais para a festa popular que acontece nas ruas de forma descentralizada.
A nota foi assinada por diversas entidades, incluindo a Liga Belorizontina, a Santa Tereza Independente Liga (Si Liga), a Liga dos Blocos de Rua e de Luta de Belo Horizonte (Bruta), a Associação dos Blocos de Rua de BH (Abra) e a Associação dos Blocos Afro de Minas Gerais (Abafro).
Posicionamento da Belotur
Em resposta às críticas, a Empresa Municipal de Turismo de Belo Horizonte (Belotur) afirmou que não há priorização de megaeventos nem investimento de recursos públicos municipais em atrações nacionais para o Carnaval. A entidade reforçou que, em 2026, os blocos de rua receberam R$ 3,21 milhões, um aumento superior a 16% em relação ao ano anterior. Por outro lado, os desfiles de passarela tiveram um investimento total de R$ 3,78 milhões, um acréscimo de quase 11% em comparação ao evento anterior.
A Belotur esclareceu que as contratações de artistas de fora da cidade são feitas diretamente pelos organizadores dos blocos, usando recursos próprios ou parcerias privadas. A entidade também destacou que não compete ao poder público municipal interferir nas escolhas artísticas dos organizadores, desde que respeitadas as normas vigentes.
Por fim, a empresa ressaltou que o crescimento do carnaval em Belo Horizonte naturalmente atraiu o interesse de artistas de diferentes portes, e que os blocos têm a autonomia necessária para buscar patrocínios e parcerias, o que, segundo eles, deve ser uma característica essencial para o desenvolvimento da cultura local.
