Descontentamento com a Mercantilização da Festa
Desde que ressurgiu em 2009, o Carnaval de Belo Horizonte se consolidou como um símbolo de luta e resistência cultural. Reconhecida por seu caráter popular, a festa tornou-se um espaço de reivindicação, mas, conforme a folia cresceu, blocos de rua e agentes culturais passaram a alertar para a crescente tentativa de cooptação por interesses privados. A postura do poder público, tanto municipal quanto estadual, tem sido vista como negligente, permitindo uma mercantilização que ameaça a essência do Carnaval.
Tainá de Oliveira Babeto e Rafael Gregório Malaquias, que estão à frente do bloco Transborda e são membros da Liga dos Blocos de Rua e de Luta de Belo Horizonte (Liga Bruta-BH), afirmam: “A organização do Carnaval de BH sempre foi fruto do trabalho dos blocos, que lutam por políticas públicas que preservem seu caráter político. Entretanto, agora enfrentamos uma tentativa de descaracterização da festa, reduzindo seu sentido de luta e pertencimento ao povo”.
Entre as principais queixas, estão a alocação de verbas que não cobrem os custos operacionais e uma clara falta de transparência nos editais. Os blocos também denunciam a imposição arbitrária de trajetos e a busca incessante por artistas de renome nacional, cujos altos cachês comprometem ainda mais o orçamento limitado que recebem.
A Luta pelo Reconhecimento e Espaço Público
A trajetória do Carnaval em BH é marcada por um forte histórico de resistência. A manifestação popular nasceu em resposta à tentativa de proibição do uso de praças e espaços públicos, quando, em 2009, surgiu o movimento Praia da Estação. A proposta era simples: criar um espaço de ocupação e resistência cultural, onde os belo-horizontinos pudessem se refrescar e reivindicar seus direitos.
Com o passar dos anos, a quantidade de blocos e foliões só aumentou, refletindo um movimento de reocupação do espaço público e uma luta por sua democratização. Blocos como Mama na Vaca e Tico Tico Serra Copo, que surgiram em 2009, são apenas alguns exemplos do crescimento que o Carnaval de BH experimentou, tornando-se um dos maiores do Brasil.
Desafios e Demandas por Diálogo
Apesar dos avanços, os organizadores da festa indicam que a relação com a Prefeitura de Belo Horizonte (PBH) ainda carece de melhorias. Há um reconhecimento de que houve um aumento na comunicação, mas os blocos acreditam que os diálogos ainda são limitados e não oferecem a horizontalidade necessária para resolver as questões que afetam a folia.
“A falta de um planejamento sério voltado para o Carnaval de rua é evidente. O que se observa é uma estrutura que favorece grandes eventos, e não o Carnaval popular”, criticam os membros da Liga Bruta. Apesar de algumas melhorias recentes com a criação da Lei 11.843/2025, que regulamenta a festa, a sensação é de que é necessário um gesto mais robusto por parte do poder público.
Financiamento e Sustentabilidade do Carnaval
Outro ponto levantado é o financiamento, que é visto como insuficiente e mal distribuído. Dos mais de 600 blocos registrados na cidade, apenas 105 recebem algum tipo de apoio financeiro, o que evidencia uma exclusão significativa. Os valores destinados não são suficientes para cobrir custos básicos, levando muitos a arcar com riscos financeiros altos para garantir a realização de suas festas.
Fidélis Alcântara, artista plástico e integrante do bloco Toca Raul, destaca que enquanto artistas renomados recebem cachês exorbitantes, os blocos disputam verbas que não alcançam nem 20% das suas necessidades. “Os recursos destinados à festividades nacionais vão para fora, enquanto os que trabalham para manter o carnaval em BH sobrevivem com o mínimo”, enfatizam.
A Iniciativa Privada e Seus Impactos
A questão do financiamento privado também levanta preocupações. Após o edital de patrocínio ser considerado deserto, a prefeitura começou a buscar investimentos diretos, recebendo um aporte da Câmara de Dirigentes Lojistas de Belo Horizonte (CDL-BH). Contudo, o valor recebido não se compara ao que é necessário para custear os blocos maiores.
Além disso, a atuação de empresas como a Ambev, que buscavam controlar a venda de bebidas durante o carnaval, gerou descontentamento e protestos. “É essencial que a festa permaneça em mãos dos que a construíram ao longo dos anos, e não em uma lógica de capital que a mercantiliza”, afirmam Babeto e Malaquias.
A Cultura como Política Pública
Os organizadores ressaltam que o Carnaval não deve ser visto apenas como um evento temporário, mas como um processo cultural contínuo que merece ser tratado com a devida importância. Eles exigem do poder público um protagonismo que não apenas reconheça, mas que também fomente a cultura local, garantindo infraestrutura e valorizando os artistas que fazem o Carnaval acontecer durante todo o ano.
“O Carnaval é uma festa política e, como tal, deve ser protegida e promovida. É fundamental que as políticas públicas estejam alinhadas com os interesses reais dos blocos e da cultura popular. Sem isso, corremos o risco de perder o que torna o Carnaval de BH único”, concluem.
