Tardias Limpezas no Rio Paraopeba
Sete anos se passaram desde que a barragem da Vale em Brumadinho se rompeu, e o Rio Paraopeba continua a enfrentar dificuldades para recuperar suas condições ambientais anteriores ao desastre. A mineradora, condenada judicialmente, é responsável pela reparação dos danos, mas o processo avança lentamente, enquanto os rejeitos de minério continuam a impactar o meio ambiente e as comunidades afetadas.
Cerca de 1,5 milhão de metros cúbicos de rejeitos de mineração foram despejados no Rio Paraopeba em janeiro de 2019. Em 2021, um Acordo Judicial de Reparação foi firmado entre a Vale e as autoridades de Minas Gerais, estabelecendo a remoção total e adequada desses resíduos até a Represa de Retiro Baixo, localizada a cerca de 320 quilômetros do local do rompimento.
No entanto, na prática, a dragagem do rio ainda se limita a apenas três quilômetros do seu curso, sendo este o primeiro trecho. O plano inicial previa a limpeza de 54 quilômetros até 2024, um prazo que não foi cumprido. O segundo trecho, correspondente a três a seis quilômetros, ainda está em processo de licenciamento, com a dragagem programada para começar somente em maio de 2026.
Enquanto isso, os trechos 3 (de seis a 38 km) e 4 (de 39 a 46 km) estão em fase de definição de estratégias e metodologias para a limpeza. Já o trecho 5, situado a jusante da Usina Hidrelétrica de Igarapé, permanece sem qualquer planejamento. O relatório também não indica previsão de dragagem do reservatório de Retiro Baixo, nem fornece dados claros sobre o percentual de rejeitos acumulados ali.
De acordo com o Instituto Guaicuy, até dezembro de 2025, apenas 17% do volume estimado de rejeitos havia sido removido da calha do rio. Além disso, perícias realizadas pelo Comitê Técnico-Científico da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG) apontaram concentrações de metais e metalóides acima dos níveis seguros na água superficial do Paraopeba. Na água subterrânea, foram identificadas alta turbidez, elevada presença de coliformes e de metais pesados.
Os estudos também revelaram a perda da cobertura vegetal nas áreas afetadas pela lama, além de mudanças no leito do rio, que levaram ao desaparecimento de lagoas naturais e ao aumento das áreas alagadas, causando danos ecológicos adicionais à bacia.
Impactos na Saúde da População
Os efeitos ambientais do desastre refletem-se também nos problemas de saúde das comunidades afetadas. Em abril de 2025, durante uma audiência pública da Comissão de Meio Ambiente da Assembleia Legislativa de Minas Gerais (ALMG), foram apresentados dados de pesquisas realizadas pela Fiocruz Minas, em colaboração com a UFRJ e apoio do Ministério da Saúde.
O Projeto Bruminha, que acompanha crianças de 0 a 6 anos desde 2021, revelou um risco três vezes maior de alergias respiratórias entre aquelas expostas à poeira proveniente dos resíduos da mineração. Além disso, um aumento significativo de relatos de problemas respiratórios foi observado entre 2022 e 2023.
As análises mostraram que 100% das amostras de urina das crianças avaliadas nos três primeiros anos da pesquisa continham arsênio. Em 2023, arsênio, chumbo e mercúrio foram detectados em todas as amostras analisadas. A concentração de arsênio acima dos níveis de referência cresceu de 42% em 2021 para 57% em 2023, evidenciando um aumento na exposição ao metal.
Entre adolescentes e adultos, a pesquisa Saúde Brumadinho revelou que 18,1% da população adulta tem diagnóstico de depressão, quase o dobro da média nacional. Os sintomas depressivos e transtornos de ansiedade afetam, respectivamente, 28,2% e 19,8% dos adultos. Entre os adolescentes, os índices são de 17,6% e 12,6%, com tendência de piora entre 2021 e 2024.
As doenças respiratórias também alarmam: a taxa de diagnóstico de asma entre adultos chega a 10,8%, duas vezes maior do que a média registrada no Brasil. Entre os adolescentes, esse índice atinge 13,2%. A situação, portanto, exige atenção imediata e ações efetivas para mitigar os efeitos do desastre e promover a recuperação tanto do meio ambiente quanto da saúde das populações atingidas.
