Desafiando a Intolerância: A Resposta da Cultura
A extrema-direita em Belo Horizonte se manifesta de forma contundente contra a diversidade cultural. Esse movimento, que reflete um conservadorismo arraigado, tem como alvo as expressões artísticas que emergem das periferias, da juventude negra e de tantos que, por meio da dança, música e poesia, se levantam contra as normas opressoras da sociedade. Na Câmara Municipal, vereadores alinhados a ideais neofascistas têm liderado uma verdadeira investida contra a cultura, apresentando projetos de lei que criminalizam ritmos como o funk e o rap, perseguições que atingem artistas e trabalhadores de um setor que, segundo dados do IBGE, emprega cerca de 5,9 milhões de pessoas e contribui com quase R$ 390 bilhões para a economia nacional.
Com discursos repletos de moralismo, eles buscam restringir o financiamento público a shows e eventos, alegando que esses estilos musicais fomentam a apologia ao crime e ao uso de substâncias ilícitas. Um exemplo notório é o Projeto de Lei (PL) 25/2025, que já passou em primeiro turno na câmara municipal e, de forma alarmante, busca ecoar o movimento nacional de repressão ao rapper carioca Oruam. Este projeto, que tramita também na Assembleia Legislativa de Minas Gerais sob o nº 3.254/25, foi introduzido por uma deputada do Partido Liberal. Na Câmara Municipal, um vereador do mesmo partido também apresentou iniciativa similar.
Essas propostas revelam não apenas o racismo estrutural, mas também a incapacidade da extrema-direita em aceitar a pluralidade cultural. O verdadeiro objetivo é criar um estado de pânico moral, reforçando estereótipos nocivos e deslegitimando a cultura popular. Como poderíamos, aliás, decidir quais músicas são aceitáveis ou não? Os artistas teriam direito a defesa e a contestação? Vale lembrar que o próprio Código Penal brasileiro já proíbe a apologia ao crime, o que torna essas novas legislações redundantes e abusivas.
Leia também: Seminário Inovador Aborda Violência de Gênero e Sexualidade no Hip-Hop
Leia também: DJ na Cultura Hip-Hop: A Revolução Musical no Sesc São Paulo
A Resistência da Cultura Negra e Periférica
A tentativa de criminalizar ritmos como hip-hop e funk não é nova. Antes, as atenções se voltaram para o samba e a capoeira. Entretanto, ao longo da história, a resistência sempre se fez presente. Através de coletivos ou iniciativas pessoais, a população tem utilizado seus talentos e criatividade para dar voz a um mundo mais justo e igualitário. A cultura negra e periférica representa uma forma de resistência contra as violências geradas pelo racismo e pelo sistema capitalista, além de abrir portas para novas possibilidades. O funk e o hip-hop, por sua vez, são muito mais que gêneros musicais; são expressões de identidade, história e vivências que geram emprego, renda e movimentam a economia local, enquanto oferecem a muitos jovens a chance de uma vida melhor.
Leia também: Mostra Hip-hop Gerais: Cadastro de Artistas Mineiros Abre Inscrições em Quatro Cidades
Leia também: Festa de Aniversário do Bloco Funk You dá Início ao Pré-Carnaval em BH em 2026
Diferentemente das visões retrógradas da extrema direita, nós acreditamos na força transformadora da cultura. Um exemplo disso é a promulgação, em 2023, da Lei 11.616, que criou o Programa Municipal de Incentivo às Batalhas de Rimas, aos Saraus e aos Slams. Essa proposta recebeu o apoio de vereadores de esquerda e foi resultado da mobilização do movimento hip-hop, que pressionou pela sua aprovação na Câmara. Graças a esse esforço conjunto, Belo Horizonte se tornou a primeira capital brasileira a implementar uma lei de incentivo a essa forma de arte.
É imperativo que o poder público reconheça o valor da cultura negra e periférica, valorizando artistas, produtores e todos os envolvidos na cena cultural. O funk, o hip-hop e as diversas expressões culturais são parte intrínseca da identidade brasileira e sua importância não será dissipada, mesmo diante dos esforços da extrema direita para apagá-las. Em meio a essa guerra cultural promovida pelos conservadores, estou confiante de que estamos do lado certo — o lado daqueles que transformam as dificuldades diárias em arte e em um desejo genuíno de mudar a realidade.
