Um olhar sensível sobre a Floresta do Sabará
Na zona leste de Porto Alegre, uma das últimas áreas remanescentes de Mata Atlântica, a Floresta do Sabará, enfrenta uma ameaça real e concreta: a expansão de um empreendimento do grupo Zaffari. É nesse cenário que um grupo de jovens cineastas da capital gaúcha decidiu contar, por meio de um curta-metragem de ficção, essa história urgente de resistência e preservação ambiental. O filme Paradoxo acompanha Valentina, personagem que vive o desgaste emocional diante da destruição do “pulmão verde” da cidade, enquanto navega entre manifestações populares, deslocamentos urbanos e a tensão constante da vida numa metrópole marcada pela desconexão e pela violência ambiental.
Ficção para criar identificação e ampliar o debate
O roteiro foi criado pela artista de rua e musicista Crua, conhecida como MC, cujo olhar sensível traduz as complexidades da luta ambiental. Para Vanessa Albuquerque, produtora executiva, o formato de ficção foi escolhido para que o público possa se conectar mais profundamente com a história de Valentina e, por extensão, com a própria luta da comunidade pelo território.
Vanessa explica que o curta não se limita à defesa da floresta, mas expande a reflexão para a importância da proteção ambiental como responsabilidade coletiva. Além disso, aborda a saúde mental dos militantes, mostrando o custo emocional da resistência constante por espaço, dignidade e sobrevivência.
Registrar a memória para preservar o futuro
O filme também busca documentar um momento histórico para a Floresta do Sabará, que, segundo Vanessa, ainda está de pé, mas enfrenta uma disputa intensa. “Registrar essa luta tem o intuito de preservar a memória”, afirma. O título Paradoxo remete à tensão entre desenvolvimento e preservação, mostrando que o crescimento urbano muitas vezes é apresentado como incompatível com a conservação ambiental – mas que, na verdade, proteger a fauna e a flora locais também é parte do desenvolvimento.
Essa dualidade se manifesta na própria paisagem, onde um pulmão verde convive com uma rua asfaltada, palco de múltiplos conflitos. “Vivemos o paradoxo de até onde podemos avançar com o desenvolvimento e a que custo”, acrescenta Vanessa.
Produção independente e exibição comunitária
Atualmente em fase de pré-produção, com o roteiro finalizado, a equipe está definindo locações e selecionando elenco para as gravações, previstas para dois finais de semana em julho. O financiamento é independente, sustentado por parceiros e uma vaquinha online que apoia a realização do projeto.
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A estreia do curta está marcada para outubro, na Sala Redenção, espaço conhecido por sua relevância na cena cultural local. O grupo não pretende lucrar com a obra, focando em exibições comunitárias e no circuito de festivais de cinema, como o Festival de Gramado, onde a exigência de ineditismo deve garantir a exclusividade das primeiras sessões.
Contexto da ameaça: empreendimento no coração da mata atlântica
A controvérsia em torno da Floresta do Sabará ganhou destaque quando o Grupo Zaffari adquiriu um terreno de 50 hectares para instalar o Cestto Atacadista e o loteamento residencial Jardim Itália. Moradores da região protestaram contra o avanço das obras, preocupados com a derrubada de árvores e o impacto sobre a fauna local.
Em resposta, o Ministério Público do Rio Grande do Sul (MPRS) instaurou um inquérito civil para investigar possíveis falhas na concessão da licença ambiental, especialmente no que diz respeito à avaliação do estágio sucessional da vegetação e ao manejo da fauna silvestre.
Pareceres técnicos e controvérsias ambientais
Um parecer emitido em abril de 2025, solicitado com urgência, não encontrou evidências robustas para questionar o estágio médio da vegetação, porém apontou irregularidades no manejo da fauna. Esse documento sugeriu a possibilidade de reavaliar a viabilidade do empreendimento, especialmente pela presença de butiazal com espécie ameaçada de extinção.
Posteriormente, em outubro do mesmo ano, novo parecer feito por biólogos do MPRS destacou que a avaliação inicial do estágio sucessional da Mata Atlântica estava inadequada. Além disso, o levantamento de fauna foi insuficiente para identificar espécies raras ou ameaçadas que habitam a área.
Licenciamento ambiental e condicionantes para o empreendimento
As licenças ambientais foram concedidas pela Secretaria Municipal de Meio Ambiente, Urbanismo e Sustentabilidade (Smamus). Documentos revelam que o projeto para o loteamento Jardim Itália tramita desde 1997, passando por várias alterações relacionadas às áreas de intervenção.
Em 2006, o Conselho Municipal de Desenvolvimento Urbano e Ambiental (CMDUA) manifestou-se contrariamente ao Estudo de Viabilidade Urbanística (EVU) apresentado, destacando a incompatibilidade do uso proposto com os parâmetros do Plano Diretor, especialmente em relação ao tamanho dos quarteirões.
Naquele mesmo ano, a Secretaria de Meio Ambiente emitiu a licença para o loteamento, condicionando o projeto à preservação de áreas de amortecimento para águas pluviais, à manutenção de Área de Preservação Permanente (APP) ao longo dos cursos d’água e à proteção de exemplares de figueira e butiazeiro.
Compromissos ambientais e desafios para a conservação
O Termo de Compromisso firmado pelo empreendedor previa a destinação de R$ 60 mil à Unidade de Conservação do Parque Saint Hilaire. A licença ambiental, renovada em 2023, mantém exigências como a preservação das espécies nativas e a instalação de placas informativas sobre a responsabilidade técnica.
Entre as obrigações está o cercamento das APPs e o plantio de quase 300 mudas nativas na área interna do terreno, além da doação ao poder público de 126 mil metros quadrados para unidade de conservação, correspondendo a uma extensa área de vegetação suprimida.
Desafio cultural e ambiental em Porto Alegre
O curta Paradoxo surge em meio a essa complexa trama de interesses, disputas ambientais e políticas urbanas, trazendo à tona uma reflexão necessária sobre o equilíbrio entre desenvolvimento e preservação. A produção independente propõe, assim, ampliar o debate público e cultural sobre a Floresta do Sabará, aproximando o público da realidade local e destacando a importância de cada gesto na proteção do patrimônio natural da cidade.
Ao levar essa história para as telas, o grupo de cineastas oferece uma oportunidade de engajamento e reflexão, reforçando que a defesa do meio ambiente é uma causa que perpassa todas as esferas da sociedade.
