Homenagens à Rainha das Águas
Em 2 de fevereiro, as celebrações em torno de Iemanjá ganham destaque em várias partes do Brasil. A famosa canção de Dorival Caymmi, “Dia dois de fevereiro, dia de festa no mar…”, ecoa entre os mineiros que trocam o “mar” por “lagoa”, “rio” ou “ribeirão”. Embora com uma geografia diferente, a festa em homenagem à deusa das águas é celebrada em Belo Horizonte por seguidores de religiões de matriz africana, que deixam oferendas às margens da Lagoa da Pampulha. Além disso, a data também é marcada por católicos que reverenciam Nossa Senhora dos Navegantes e Nossa Senhora das Candeias.
A música “Dois de fevereiro”, interpretada por Gal Costa, embala a história da escultura de Iemanjá, inaugurada em 1982 na Lagoa da Pampulha, como parte das festividades em homenagem à orixá. As primeiras celebrações na cidade ocorreram em 1958, organizadas pela Federação Espírita Umbandista de Minas Gerais, que lançou as bases para as comemorações que conhecemos hoje.
História da Escultura e sua Importância
A primeira escultura de Iemanjá, idealizada pelo artista José Synfronini de Freitas Castro, foi esculpida em mármore sintético branco. Contudo, devido à depredação frequente e atos de intolerância religiosa, as comunidades afro-brasileiras se mobilizaram para preservar a memória da orixá. Em 1988, inaugura-se um novo monumento em bronze, também obra de Synfronini, nas proximidades da Praça Dalva Simão. O impacto dessa escultura vai além do valor artístico; ela representa a resistência e a cultura afro-brasileira, especialmente em um estado com uma rica história de diversidade.
Em 2007, o “Portal da Memória”, desenhado pelo escultor Jorge dos Anjos, foi acrescentado ao espaço. A obra contrasta com a mítica “Árvore do Esquecimento”, símbolo da diáspora africana, reafirmando a humanidade dos africanos que foram sequestrados e trazidos para o Brasil. O Portal representa um testemunho da luta e resistência dos negros e a valorização das tradições africanas presentes na capital mineira.
A Festa de Iemanjá em Belo Horizonte
A Festa de Iemanjá, conhecida como “Encontro com Iemanjá”, é realizada desde 1958 no sábado mais próximo a 15 de agosto e foi reconhecida como Patrimônio Cultural de Belo Horizonte em 2019. Esse reconhecimento destaca a importância da iniciativa da sociedade civil que mantém viva a tradição. Embora não haja uma programação oficial para o Dia de Iemanjá, as atividades ritualísticas continuam a ocorrer de forma independente por parte da comunidade.
A Origem do Culto
O culto a Iemanjá possui raízes profundas na cultura africana e foi introduzido nas Américas pelos africanos escravizados. O nome da orixá, proveniente da língua iorubá, significa “mãe cujos filhos são peixes”, refletindo a conexão forte com a natureza e os elementos aquáticos. Iemanjá é também conhecida no Brasil por outros nomes, como Janaína e Rainha do Mar, e sua adoração se espalha muito além das regiões litorâneas. Essa divindade é uma figura central nas culturas afro-brasileiras e representa o arquétipo de ‘Grande Mãe’, sendo uma das orixás mais veneradas no país.
Mestre Valentim e o Patrimônio Cultural Mineiro
Além das festividades ligadas a Iemanjá, vale a pena lembrar a importância do Patrimônio Cultural de Minas Gerais, destacando a obra do mestre Valentim da Fonseca e Silva, o famoso Mestre Valentim. Nascido no Serro, suas contribuições para a arte colonial são inestimáveis. Recentemente, soubemos que os lampadários de prata na Igreja do Mosteiro de São Bento, no Rio de Janeiro, foram criados por ele entre 1781 e 1783.
Assim como as celebrações de Iemanjá, a obra de Valentim também reitera a riqueza cultural que Minas Gerais possui. Com passagens por diversos templos e praças cariocas, sua arte reflete as influências e tradições dos colonos que ajudaram a moldar a cultura brasileira.
O Papel da Cultura na Identidade Mineira
Com o Carnaval se aproximando, uma novidade emerge das tradições locais. O Bloco Cravo Vermelho, de Sabará, estará de volta após mais de 80 anos, trazendo à tona uma parte importante do patrimônio imaterial da região. O bloco promete unir a estética dos antigos carnavais com a energia das novas gerações, fazendo um resgate da identidade cultural da agremiação.
Em meio a essas celebrações, o historiador Gustavo Villa destaca a importância da pesquisa e uso de novas tecnologias para iluminar a história de Minas. No curta “Enviados do czar: A Expedição Langsdorff no Arraial de Santa Luzia”, Villa explora a passagem do Barão de Langsdorff por Minas, trazendo à tona momentos cruciais da história científica e cultural do Brasil no século XIX.
Assim, a interconexão entre as diversas manifestações culturais que acontecem em Minas Gerais, como o culto a Iemanjá e as obras de Mestres como Valentim, ressalta a diversidade e a riqueza que o estado possui, tornando-o um verdadeiro mosaico cultural.
