Desafios da Comunidade Warao na Grande BH
Em um cenário de vulnerabilidade extrema, barracas improvisadas feitas de madeira e lona estão amontoadas em um terreno sem pavimentação na região de Betim, na Grande Belo Horizonte. Ao redor, montanhas de tijolos, mato alto e roupas estendidas em varais se misturam a resíduos e objetos pessoais jogados no chão. A situação precária é a realidade diária de 258 indígenas da etnia Warao, imigrantes venezuelanos que buscam melhores condições de vida, mas enfrentam sérios desafios. A ocupação começou em agosto de 2023, segundo o Ministério Público de Minas Gerais (MPMG), e entre os moradores está Eulio Medina Warao, de 40 anos, que deixou seu país natal em busca de um futuro melhor.
“Ninguém sai do seu país porque quer”, enfatizou Eulio em entrevista ao Estado de Minas, ao ser questionado sobre sua jornada migratória. Ele revelou que saiu da Venezuela em 31 de dezembro de 2020, acompanhado pela esposa e quatro filhos, devido à repressão política. O clima de insegurança permanece, uma vez que falar sobre política, como ele mesmo menciona, pode ser arriscado. Desde 2013, Nicolás Maduro governava a Venezuela até ser forçado a deixar o poder há poucos dias, em uma intervenção militar dos Estados Unidos.
A expectativa de retorno à Venezuela é praticamente inexistente para Eulio e os outros ocupantes, que depositam suas esperanças no Brasil, embora as condições atuais sejam alarmantes. Uma visita técnica realizada em 19 de dezembro de 2025 pelo MPMG, junto com outras instituições, reconheceu a crise humanitária enfrentada pela comunidade Warao.
Insegurança Alimentar e Assistência Social
Os desafios vão além da moradia. A insegurança alimentar é uma das principais preocupações. “Muitas famílias dependem de doações de cestas básicas de igrejas e organizações da sociedade civil, além de recorrerem à mendicância em vias públicas”, explicou o promotor de Justiça Walter Freitas. Os programas sociais disponíveis são considerados insuficientes para garantir uma subsistência digna.
A precariedade das moradias também é alarmante. As construções feitas de madeira e lona são pequenas e abrigam famílias inteiras, como constatado pela reportagem. Em dias de chuva, o interior fica encharcado, e quando o sol brilha, a temperatura se torna insuportável, como relatou Antonio Sapata Warao, de 36 anos, que tem enfrentado essas adversidades desde que chegou ao Brasil em 2016. Eulio Warao menciona a necessidade urgente de materiais que poderiam proporcionar moradias mais resistentes e itens de higiene essenciais.
A Saúda e a Educação no Foco
A saúde da comunidade também é uma preocupação constante. Equipes da Estratégia de Saúde da Família têm realizado visitas regulares desde 2024, promovendo ações de saúde e vacinação, mesmo diante de barreiras culturais e resistência inicial ao atendimento. A Funai, por sua vez, também se faz presente, trabalhando em conjunto com a Secretaria Especial de Saúde Indígena (Sesai).
A educação é outra questão crítica. Eulio Warao mencionou que há cerca de 64 crianças indígenas na faixa etária de até 14 anos na comunidade. Embora algumas estejam matriculadas nas escolas locais, muitas enfrentam bullying devido à sua condição de imigrantes. Além disso, a preservação da língua Warao e dos costumes ancestrais se torna uma preocupação, dado que estão distantes de seu território de origem.
A Prefeitura de Betim afirma que está realizando visitas técnicas para identificar as necessidades educacionais da comunidade, assegurando que a falta de documentação não seja um impedimento para a matrícula. Entretanto, o número de crianças matriculadas não foi informado. A Funai acompanha a inserção dos jovens no sistema educacional, considerando as dificuldades de adaptação ao novo ambiente escolar.
Desafios de Empregabilidade
Para os adultos, as opções de trabalho se limitam a empregos temporários, principalmente na construção civil. Eulio comenta que essas oportunidades são vantajosas, pois as empresas oferecem transporte. Contudo, a adaptação ao mercado de trabalho é um grande obstáculo, especialmente para aqueles como John Vargas Warao, de 38 anos, que perdeu seu título de professor de pedagogia indígena na Venezuela e busca a oportunidade de retomar sua carreira no Brasil.
As mulheres da comunidade também enfrentam dificuldades devido à falta de materiais para artesanato, uma prática que pode gerar renda e fortalecer suas tradições. Eulio ressalta que isso dificulta a preservação de sua cultura e a segurança financeira da comunidade.
Conflitos e Futuro Incerto
Para Eulio Warao, a solução para a melhoria das condições de vida da comunidade é a destinação de um território definitivo. No entanto, ele alerta que a simples concessão de terra não é suficiente sem acompanhamento e infraestrutura. O terreno em que estão atualmente ocupando está envolto em uma ação judicial de reintegração de posse, acompanhada por várias instituições, incluindo o Tribunal de Justiça de Minas Gerais e a Funai.
O TJMG está agendando uma vistoria para discutir a possível doação de um novo espaço para os Warao, que pertence ao Instituto Nacional de Reforma Agrária (Incra). O desembargador Leopoldo Mameluque expressou otimismo quanto à resolução desse impasse.
Além dos problemas estruturais, a comunidade também lida com conflitos internos, que complicam ainda mais a situação. O Ministério Público informou que há registros preocupantes de mortes de crianças por falta de assistência e casos de abuso, o que eleva o nível de urgência na intervenção.
Com um futuro incerto e uma luta diária pela sobrevivência, a comunidade Warao em Betim continua a buscar esperança e dignidade em um novo lar.
