O peso da dívida e o impacto nas eleições mineiras
Minas Gerais vive um momento delicado diante do próximo ciclo eleitoral, marcado por um rombo bilionário e pelo enfraquecimento da base produtiva. Assumir o governo estadual tornou-se uma tarefa que muitos políticos de peso preferem evitar, diante dos riscos evidentes. A dívida do estado com a União, renegociada pela 14ª vez em dezembro de 2025, atingiu R$ 179,3 bilhões, enquanto o relatório de gestão fiscal do mandato de Romeu Zema aponta o maior déficit em recursos livres entre os estados que encerraram 2025 no vermelho.
Essa realidade é destacada pela cientista política Marta Mendes, da UFJF, que aponta que governar Minas hoje é mais aceitar uma sentença do que simplesmente assumir um cargo. O cenário desencoraja candidatos tradicionais, como Nikolas Ferreira, que opta por buscar a reeleição em vez de disputar o governo do estado. Outros nomes, como Cleitinho e Rodrigo Pacheco, também demonstram cautela, compreendendo que tomar as rédeas da administração significa enfrentar um desafio gigantesco sem garantias de sucesso.
Crise estrutural e dependência das commodities
O déficit fiscal do estado é apenas um sintoma de um problema mais antigo e estrutural. Minas Gerais deixou de investir na construção de sua base produtiva e passou a depender quase exclusivamente do ciclo das commodities, que embora lhe tenham proporcionado riqueza fácil, nunca garantiram autonomia econômica. A indústria de transformação brasileira, que representava cerca de 27% do PIB nacional nos anos 1980, hoje responde por apenas 11%. Em Minas, a indústria ainda representa cerca de um quarto do PIB estadual, mas está concentrada principalmente em setores como siderurgia e mineração de baixo valor agregado, especialmente no Vale do Aço e no Quadrilátero Ferrífero.
Esses polos, que precisariam avançar em inovação e sustentabilidade, foram palco do maior escândalo de corrupção ambiental recente do estado durante o governo de Romeu Zema, evidenciando falhas graves na gestão pública e na modernização da economia local.
O legado de Romeu Zema e as controvérsias na gestão
Eleito em 2019 como um empresário eficiente e outsider político, Romeu Zema renunciou ao cargo em março de 2026 para disputar a Presidência, deixando o governo para o vice Mateus Simões (PSD). Seu governo ficou marcado menos pela gestão eficiente e mais por um espetáculo político que, muitas vezes, serviu a interesses restritos. A imagem mais lembrada do segundo mandato foi um vídeo viral em que Zema come uma banana com casca para ironizar a inflação dos alimentos, simbolizando um teatro de austeridade enquanto o estado enfrentava sérios problemas econômicos.
O fôlego político do governador veio, em grande parte, do acordo financeiro pelo rompimento da barragem de Brumadinho, que garantiu R$ 37,68 bilhões para o estado. Esse montante, que não nasceu de políticas públicas ou arrecadação própria, foi destinado a obras na Região Metropolitana de Belo Horizonte e a centenas de municípios, permitindo a Zema construir uma base de apoio político.
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Outro ponto polêmico foi a privatização da Copasa, concluída em junho de 2026, após aprovação da Assembleia Legislativa de Minas Gerais que retirou a exigência de referendo popular. A venda da estatal por R$ 5,5 bilhões, valor considerado baixo frente ao lucro anual da empresa, ocorreu em meio a denúncias de irregularidades e investigações de corrupção. O processo evidenciou a retirada da palavra do povo sobre o patrimônio mineiro.
Corrupção ambiental e desafios fiscais
A gestão de Zema também ficou marcada pela Operação Rejeito, deflagrada em setembro de 2025 pela Polícia Federal, que revelou um esquema bilionário de fraude em licenciamento ambiental, suborno de servidores da Fundação Estadual do Meio Ambiente (Feam) e flexibilização de normas ambientais por decreto do próprio governador. A operação bloqueou R$ 1,5 bilhão em bens e prendeu líderes do esquema, incluindo um ex-deputado estadual indicado por Zema.
Enquanto o governo vendia estatais para tentar equilibrar as contas, aprovou um reajuste salarial de aproximadamente 300% para o governador, elevando o salário para R$ 41,8 mil mensais a partir de fevereiro de 2025, o segundo maior do país. Essa decisão gerou contradição em meio ao discurso de austeridade e ao cenário de crise fiscal.
O PT em Minas e suas estratégias eleitorais
O Partido dos Trabalhadores (PT) mantém presença significativa em Minas Gerais, com 35 prefeitos eleitos em 2024 e a maior bancada na Assembleia Legislativa, com 12 dos 77 deputados. Apesar do histórico de governança no estado, como os mandatos de Patrus Ananias e Fernando Pimentel na prefeitura de Belo Horizonte, o PT não conseguiu recuperar o governo estadual após 2018, quando Pimentel enfrentou a pior recessão do país e uma crise fiscal profunda.
Durante seu mandato, Pimentel evitou privatizações de estatais, mesmo sob pressão para aderir ao Regime de Recuperação Fiscal, e manteve os pagamentos da dívida em dia. Contudo, não conseguiu promover uma virada produtiva no estado. Atualmente, nomes como Marília Campos resistem à pressão para concorrer ao governo, preferindo disputar o Senado e focando em estratégias eleitorais que dialoguem com o cenário nacional.
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A queda do PSDB e o vácuo político em Minas
O PSDB, que por décadas liderou a política mineira com figuras como Aécio Neves e Eduardo Azeredo, sofreu uma queda abrupta, agravada pelas delações da Lava Jato e escândalos que abalaram sua credibilidade. A ausência de uma liderança à altura após Aécio abriu espaço para o surgimento de Romeu Zema em 2018, candidato outsider que capitalizou o desgaste das legendas tradicionais.
Essa transformação política deixou Minas sem uma direita estruturada e capaz de oferecer liderança duradoura, cenário que dificulta a formação de candidaturas competitivas e o fortalecimento de projetos de governo consistentes.
Minas Gerais entre o tabuleiro nacional e seus próprios desafios
O ano de 2018 consolidou a erosão dos partidos tradicionais e a ascensão de Romeu Zema, que apesar de eleito para liderar o estado, não conseguiu estabelecer uma coordenação decisiva para Minas Gerais. Com a renúncia de Zema em 2026 e a candidatura de Mateus Simões, que aparece atrás nas pesquisas, o quadro evidencia que o problema não é apenas pessoal, mas estrutural.
Minas Gerais, espelho do Brasil em diversidade social e econômica, tornou-se um território disputado por interesses nacionais, sem respostas eficazes para suas questões locais. A dívida, a sonegação, a falta de sucessão política organizada e a ausência de reindustrialização mantêm o estado em um ciclo de crise e dependência.
A pergunta que permanece é se algum dos dois grandes campos políticos nacionais conseguirá, em algum momento, tratar Minas Gerais como um projeto produtivo a ser construído, e não apenas como um colégio eleitoral a ser administrado à distância. Enquanto isso não acontece, o estado segue à mercê de lideranças que evitam assumir o ônus do governo e de políticas públicas que pouco avançam na resolução dos seus desafios estruturais.
