Desaparecimento e buscas no Huascarán
Há mais de uma semana, os alpinistas Freddy Mendoza, Alejandro Ugarte e Artidoro Salas estão desaparecidos na região conhecida como “La Garganta”, situada entre o Acampamento 1 e Acampamento 2 do Monte Huascarán, no Peru, a cerca de 6 mil metros de altitude. O último contato do grupo foi na manhã do dia 14, quando um dos integrantes conseguiu ligar por celular para informar que estavam perdidos. Desde então, as autoridades mantêm as buscas, sem sucesso até o momento.
Desafios naturais e condições extremas
O caso evidencia os perigos de escalar o Huascarán, a montanha mais alta do Peru e uma das mais exigentes da Cordilheira Branca. As temperaturas na região podem atingir até -15°C, enquanto a presença de fendas e terreno glacial dificulta tanto a sobrevivência dos alpinistas quanto as operações de resgate. A Força Aérea Peruana (FAP) mobilizou o helicóptero MI-17 FAP 603 e uma Brigada de Busca e Resgate (SAR), com 12 profissionais especializados, para intensificar as buscas.
Além do desaparecimento, outro incidente aconteceu recentemente no Huascarán: uma avalanche no setor de La Canaleta, no dia 16, matou um carregador e feriu um turista indiano. O deslizamento ocorreu por volta das 7h30, a aproximadamente 5.500 metros de altitude, durante a escalada por uma das rotas mais difíceis da montanha.
Impactos das mudanças climáticas na escalada
Wilson Alfredo Suárez Alaiza, Diretor de Inovação, Pesquisa e Desenvolvimento do Serviço Nacional de Meteorologia e Hidrologia do Peru (Senamhi), destaca que a análise das condições deve considerar toda a Cordilheira Branca, não apenas o Huascarán. Ele explica que, nos últimos 30 anos, a isoterma de 0°C, que indica o limite da temperatura para a existência do gelo, subiu de aproximadamente 4.600 metros para entre 4.900 e 5.000 metros.
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Fonte: decaruaru.com.br
Esse aumento da temperatura do ar afeta diretamente a coesão e a resistência do gelo das geleiras, que começa a derreter e perder força. “Quando a água da neve derretida infiltra-se nas rachaduras e atinge as rochas, pode provocar grandes avalanches”, alerta Suárez, apontando que este ano tem apresentado temperaturas especialmente altas, aumentando os riscos para alpinistas e equipes de resgate.
Instabilidades e monitoramento das geleiras
Luzmila Dávila, vice-diretora de Pesquisa de Geleiras do Instituto Nacional de Pesquisa de Geleiras e Ecossistemas de Montanha (Inaigem), explica que o fenômeno El Niño imprevisível tem agravado a instabilidade das geleiras, especialmente no Huascarán. Segundo Dávila, áreas antes consideradas seguras estão se tornando instáveis, tornando a escalada mais perigosa.
O Inaigem acompanha o Huascarán com o uso de drones para coleta de dados fotogramétricos e monitora a concentração de partículas que afetam a poluição das geleiras. Até o momento, foram registradas oito avalanches significativas neste ano, mostrando a complexidade do cenário.
Coordenação e desafios nas operações de busca
O Gerente Regional de Gestão de Riscos de Desastres do Governo Regional de Áncash, Gastone Rafael Macedo Menacho, informou que esforços conjuntos com a Força Aérea Peruana e a Polícia Nacional foram organizados para intensificar as buscas, incluindo operações aéreas com helicópteros. Contudo, as ações foram interrompidas devido às condições climáticas adversas, que comprometem a visibilidade e a segurança.
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Fonte: soudesaoluis.com.br
O representante destacou a complexidade do comportamento glacial e a necessidade de protocolos específicos para expedições no Huascarán, que ainda não existem. Por isso, propõe a criação de um grupo de trabalho envolvendo diversas entidades para desenvolver diretrizes que possam prevenir acidentes e melhorar a resposta a emergências.
Enquanto isso, o Estado tem investido em sistemas comunitários de alerta precoce e firmado acordos técnicos para fortalecer a assistência em situações de risco. As famílias dos alpinistas desaparecidos também recebem apoio social, diante do cenário de incertezas.
Este episódio reforça o impacto das mudanças climáticas nos ambientes montanhosos e traz à tona a urgência de medidas que equilibrem a aventura com a segurança, considerando as consequências econômicas e sociais para as comunidades locais e para o turismo de montanha.
