Memórias em Foco: A Exposição Retratistas do Morro
A exposição “Retratistas do Morro – Território de Memórias”, inaugurada em 20 de dezembro no Aglomerado da Serra, em Belo Horizonte, oferece uma nova perspectiva sobre as favelas brasileiras. Segundo Guilherme Cunha, artista e idealizador da mostra, o evento é uma oportunidade de refletir sobre a história das imagens, pensando a partir do olhar de fotógrafos que vivem e trabalham em suas comunidades. “É uma história que pertence à favela, narrada por seus próprios moradores”, destaca.
Com a celebração dos dez anos do projeto Retratistas do Morro, os organizadores buscam revisar o imaginário sobre as favelas, utilizando o Aglomerado da Serra como pano de fundo. A exposição apresenta seis grandes fotografias em fachadas de imóveis, cada uma contando uma história que frequentemente não encontra espaço em livros ou museus.
Uma Potência Cultural Invisibilizada
Guilherme Cunha enfatiza que a exposição evidencia uma “potência nacional” que foi historicamente obstruída e invisibilizada por questões de segregação e racismo estrutural. Ele afirma: “Essas histórias, a arte e as vivências da favela não podem ser ignoradas”. A escolha de revelar as fotos em tamanhos que variam de quatro a nove metros traz um impacto visual forte, que convida o público a reconhecer as narrativas que emergem das periferias.
Contando Histórias: A Voz dos Moradores
Os relatos e imagens presentes na exposição foram gerados por moradores da comunidade, como João Mendes e Afonso Pimenta, que buscam mostrar que a verdade sobre as favelas deve ser contada por quem realmente vive lá. Cunha menciona que muitas imagens exibidas nas instituições não provêm dos artistas locais, mas de fontes externas que não capturam a essência das vivências autênticas. “As imagens que estão nas instituições são de terceiros, e não das vozes originais”, critica.
O projeto do Retratistas do Morro visa não apenas exibir fotografias, mas também reconfigurar o imaginário coletivo a respeito das periferias, afastando-se de estereótipos e preconceitos.
As Fotografias e Suas Histórias
A escolha das imagens para exposição foi meticulosa. Cada fotografia está ligada à vida dos personagens que retrata. Por exemplo, a primeira galeria mostra Adaílson Pereira da Silva no Baile Soul do DCE, instalado na entrada do beco onde ele morava. Essa e outras histórias se entrelaçam com o cotidiano da comunidade, como a de Sônia Cristina da Silva, que aos 19 anos precisou de uma foto para conseguir seu primeiro emprego. Hoje, aos 65, Sônia recorda com emoção a importância daquela imagem, que representa um momento especial de sua vida.
A exposição também apresenta a fotografia de Renata Gonçalves dos Santos em seu aniversário de seis anos, além de imagens de crianças vestidas de beca, que ressaltam a simplicidade e a beleza dos momentos cotidianos na favela. Cada imagem exibe não apenas a história de seus personagens, mas também a identidade e o orgulho da comunidade.
A Gênese do Retratistas do Morro
O projeto surgiu de uma conversa marcante no galpão da Associação Espírita Christopher Smith, na Vila Santana do Cafezal, quando Dona Ana Martins compartilhou com Guilherme um acervo de monóculos fotográficos. Essas imagens, tiradas desde a década de 1960, capturam o cotidiano dos moradores e revelam a riqueza de suas histórias, que frequentemente não são documentadas em espaços formais.
“Nunca havia visto nada parecido em livros ou exposições”, relembra Guilherme sobre uma imagem que o impactou profundamente. Essa epifania o levou a entender a necessidade de dar voz e visibilidade às histórias que, há muito tempo, estavam exclusivas ao registro dos moradores, e não à representação institucional.
Um Legado que Continua
As galerias da exposição Retratistas do Morro permanecerão abertas até dezembro de 2026, convidando o público a revisitar e reconhecer as memórias da comunidade. Guilherme Cunha, acompanhado por fotógrafos e colaboradores, busca constantemente elevar a voz da favela e promover um olhar mais justo sobre suas narrativas.
