Encerramento de um capítulo histórico em Barbacena
Na última segunda-feira (25/5), Barbacena deu um passo importante na história da saúde mental no Brasil ao concluir a transferência dos últimos 14 pacientes do antigo hospital-colônia para um lar terapêutico no município. Com essa mudança, o Centro Hospitalar Psiquiátrico de Barbacena (CHPB) reafirma seu papel na Rede de Atenção Psicossocial (RAPS), concentrando esforços em crises agudas e atendimentos ambulatoriais conforme os parâmetros do Sistema Único de Saúde (SUS). O evento contou com a presença do secretário estadual de Saúde, Fábio Baccheretti, do prefeito local, Carlos Augusto Soares do Nascimento, da presidente da Fundação Hospitalar do Estado de Minas Gerais (Fhemig), Renata Dias, além de ex-pacientes e autoridades regionais e estaduais.
Residência terapêutica e cuidado humanizado
A transferência dos pacientes, realizada durante o final de semana, simboliza muito mais que a mudança de endereço. Eles agora residem em um espaço planejado para oferecer acompanhamento especializado, promovendo cuidado dignificado e humanizado, rompendo com o passado marcado pelo isolamento e abandono. No momento simbólico do evento, a porta do Pavilhão Antônio Carlos foi trancada com cadeado, gesto que representa o compromisso do Estado com a dignidade humana e o cuidado em liberdade.
O secretário Fábio Baccheretti ressaltou a importância dessa conquista: “São 25 anos desde a Lei da Reforma Psiquiátrica e muita luta até aqui. A saída dos últimos pacientes encerra uma história dolorosa de milhares de pessoas que viveram e morreram nos pavilhões. Esse é um legado do qual me orgulho”. A presidente da Fhemig, Renata Dias, e o diretor do Complexo Hospitalar de Barbacena, Claudinei Emídio Campos, também destacaram o esforço e a dedicação dos profissionais envolvidos, reforçando que a mudança representa uma ressignificação da história em direção à liberdade.
Impacto e histórias por trás dos números
Os números traduzem a dimensão da transformação. Entre 1942 e 2020, aproximadamente 40 mil pessoas passaram pelo hospital-colônia, com cerca de 24 mil óbitos registrados. Em seu auge, o hospital chegou a abrigar 3.500 pacientes simultaneamente. Os moradores que foram transferidos viveram internados, em média, 49 anos, com idade média atual de 73 anos. Três deles foram admitidos ainda crianças, antes dos 15 anos. Muitas internações ocorreram em um contexto de abandono familiar, preconceito e sofrimento psíquico, quando o estigma social frequentemente resultava em isolamento compulsório.
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A presidente do Conselho Estadual de Saúde, Lourdes Machado, compartilhou sua experiência: “Visitei o hospital quando era estudante e isso definiu minha trajetória na defesa da luta antimanicomial. Garantir um final de vida digno para essas pessoas é nossa responsabilidade”.
Histórico do hospital e memória preservada
Fundado em 1903 como Sanatório de Barbacena para tratamento de tuberculose, o local foi transformado em 1911 no primeiro hospital psiquiátrico público de Minas Gerais, conhecido como hospital-colônia. Durante o século XX, tornou-se símbolo de um modelo manicomial marcado por superlotação, abandono e violações de direitos humanos. Essa história ganhou repercussão nacional por meio de reportagens e registros que denunciaram as condições dentro da instituição.
Parte dessa memória está preservada no Museu da Loucura, que atua como um espaço de reflexão para que esse passado não seja esquecido e que práticas abusivas nunca mais se repitam.
Desinstitucionalização e avanços na rede de saúde mental
Desde 2019, a Secretaria de Estado de Saúde de Minas Gerais (SES-MG) conduz o processo de desinstitucionalização no CHPB, promovendo a alta e reinserção social de usuários. Entre 2019 e 2025, 68 moradores foram transferidos para Serviços Residenciais Terapêuticos em municípios como Antônio Carlos, Carandaí e Ibertioga, com destaque para 2022, que registrou 27 altas, o maior número do período.
O investimento em saúde mental no estado ultrapassa R$ 718 milhões desde 2019, com previsão de R$ 100 milhões para 2025. Minas Gerais conta atualmente com 453 Centros de Atenção Psicossocial (CAPS), sendo 65 dedicados exclusivamente ao atendimento infantil e adolescente. O atendimento psiquiátrico no CHPB segue ativo, alinhado às diretrizes do SUS, garantindo suporte especializado para crises e acompanhamento contínuo.
Essa transição representa uma mudança significativa no modelo de atenção à saúde mental em Minas Gerais, priorizando o cuidado em liberdade, a dignidade e o respeito aos direitos dos pacientes, além de fortalecer a rede pública com foco na prevenção e na inclusão social.
