Irregularidades trabalhistas detectadas em unidades da Shopee em Minas Gerais
Betim está entre as três cidades mineiras onde uma fiscalização da Auditoria-Fiscal do Trabalho encontrou 7.781 trabalhadores em situação irregular nas unidades da Shopee. A inspeção revelou indícios de fraude na contratação de 1.024 motoristas entregadores e outros 6.757 trabalhadores envolvidos nas operações logísticas dos armazéns da empresa. Além de Betim, a ação ocorreu também em Contagem e São José da Lapa, municípios da Região Metropolitana de Belo Horizonte.
Controle rígido e assédio moral na operação dos entregadores
Os auditores identificaram que os motoristas chamados de “parceiros” enfrentavam um sistema de controle rígido por meio do aplicativo da Shopee. Esse sistema monitorava o desempenho, impunha regras e gerava riscos psicossociais, configurando práticas de assédio moral organizacional. Os entregadores não tinham autonomia para escolher rotas ou definir valores, pois a empresa estabelecia todas essas condições.
Além disso, a fiscalização apontou que, nas unidades de armazenagem, havia uso irregular de mão de obra temporária e terceirizada para atividades essenciais à movimentação das mercadorias, contrariando as normas trabalhistas.
Caracterização de vínculo empregatício e autos de infração
A análise da Auditoria-Fiscal do Trabalho indicou que a relação entre a Shopee e os entregadores preenchia os requisitos para vínculo empregatício: pessoalidade, subordinação, pagamento, habitualidade e prestação do serviço por pessoa física. Embora os motoristas fossem apresentados como “partners”, as condições de trabalho demonstravam controle direto da empresa, inclusive com cobranças e monitoramento em tempo real.
Ao final da fiscalização, foram emitidos 54 autos de infração. Entre as irregularidades destacam-se a contratação por meio de fraude, ausência de registro em Carteira de Trabalho, falta de identificação dos riscos ocupacionais, falhas na organização do trabalho e descumprimentos relacionados à Cipa e ao Serviço Especializado em Segurança e Medicina do Trabalho. A empresa também não apresentou documentos solicitados pelos fiscais.
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Aplicativo como ferramenta de comando e controle das entregas
O aplicativo usado pelos entregadores funcionava não só para organizar as tarefas, mas também para comandar, acompanhar e validar as entregas. A plataforma definia rotas, prazos, procedimentos, formas de comunicação com clientes e critérios para avaliação dos trabalhadores. Recursos como geolocalização, reconhecimento facial e monitoramento em tempo real eram empregados para controlar a operação.
O sistema classificava os entregadores com base em desempenho, tempo nas rotas, devoluções e histórico de comparecimento. No entanto, os trabalhadores não tinham acesso completo aos critérios usados para essa classificação, que influenciava diretamente o acesso a novas oportunidades de trabalho. Em alguns casos, menos de 15% dos entregadores disponíveis foram convocados para rotas, deixando muitos sem chances de trabalho mesmo após manifestarem interesse.
Rotas e convocações em horários inadequados
A fiscalização revelou que ofertas de rotas eram enviadas durante a madrugada, com chamadas feitas por volta das 2h30 ou 3h30 para início das atividades entre 5h30 e 6h30. Os entregadores tinham até uma hora e meia para aceitar ou rejeitar as rotas, o que exigia atenção constante ao aplicativo, mesmo durante períodos de descanso. Essa cobrança impactava diretamente o ranking dos motoristas e sua possibilidade de receber novas convocações.
Além disso, a expectativa de entrega era alta, com aproximadamente 20 pacotes por hora e uma taxa de sucesso de 98%. Durante as rotas, os motoristas eram monitorados em tempo real por uma “Torre de Controle” que acompanhava cerca de 5 mil entregadores diariamente em Minas Gerais e outros estados.
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Responsabilidades financeiras e riscos transferidos aos entregadores
Os valores pagos pelas entregas eram determinados pela Shopee, sem negociação com os trabalhadores. Motociclistas recebiam por pacote entregue, enquanto motoristas de carros e utilitários eram remunerados por rota. Em casos de entregas não concluídas, não havia pagamento, mesmo quando fatores externos impediam a finalização.
Os entregadores arcavam com os custos de veículo, combustível, manutenção, equipamentos de proteção e serviços de reboque, transferindo para si os riscos econômicos da atividade. Essa situação contraria o princípio de que o empregador deve assumir esses encargos.
Foi identificado ainda que alguns motoristas contratavam ajudantes para cumprir prazos e metas, dividindo os valores recebidos. Essa prática aumenta o risco de acidentes, especialmente no transporte de pessoas em motocicletas.
Até o momento, a Shopee não se manifestou sobre os resultados da fiscalização, conforme contato feito pela reportagem.
